O PSD apresentou finalmente o seu programa. Tem prós e contras. A nível negativo, a falta de honestidade. Socialismo por socialismo, antes o socialismo do PS, que é mais assumido. A nível positivo, o facto de ser mais curtinho. A treta de fundo é a mesma mas fica mais fácil destilar a porcaria.
O programa começa com grandes linhas orientadoras. Na parte da economia, que é a que mais me interessa, assume frontalmente a cisão com o PS: quer melhorar a competitividade das empresas (supõe-se que o PS a quisesse diminuir), propõe aumentar o crescimento económico (assim, com bold e tudo, que esta é daquelas ideias que não ocorrem a mais ninguém) e garante que não vai tomar uma atitude “dirigista” da economia.
Claro que isto de combater o dirigismo é só na primeira coluna da página 11. Na segunda, o PSD já quer criar um “mecanismo inovador de incentivo à poupança” para fomentar a poupança das famílias e das empresas. Nas páginas seguintes, a esquizofrenia continua: propõem lançar “um conjunto de programas que promovam o desenvolvimento de novas indústrias e serviços da economia do futuro” (até lhe podiam chamar Plano Tecnológico, se não visasse também a “fileira florestal”) e querem orientar os apoios de fundos públicos “prioritariamente para empresas inovadoras, estimulando o investimento empresarial em I & D).
Já chega? Para um partido socialista, talvez. Mas o PSD é um partido que quer romper com o “paradigma dominante do Estado que gere a economia”. Por isso, propõe ainda “apoiar a produção de biocombustíveis e de combustíveis derivados de resíduos” (subsídios, portanto), recuperar a “ligação entre as organizações de agricultores e os apoios ao sector” (um óptimo princípio, evidentemente), criar “um quadro de apoio à instalação de jovens empresários rurais” – distinguindo, claro, “nos incentivos a prever, entre as regiões mais desfavorecidas e as restantes” – e, cereja em cima do bolo, “dar orientações à CGD para reforçar a sua actuação no financiamento das PME exportadoras”.
No meio disto tudo, o PSD podia dizer onde é que está exactamente a parte de diminuir o peso do Estado na economia. Mas isso é uma chatice, porque é daquele tipo de coisas que ninguém quer ouvir. Assim, o PSD compromete-se apenas a “preparar um programa plurianual de redução do peso da despesa pública no PIB”. Só aí identificará “os tipos de despesa susceptíveis de serem reduzidos”, que passará “seguramente” pela redução na “despesa corrente primária” e pela “selectividade e exigência nos novos investimentos”. Há quem pense que é exactamente para decidir este tipo de coisas que servem os programas eleitorais, mas enfim.
Contudo, se é verdade que não sabemos onde o PSD quer cortar, ninguém pode dizer que não sabemos onde pretende gastar. Apontem: “estender o período potencial de concessão do subsídio de desemprego”, criar “um programa especial de estágios profissionais para desempregados”, incentivar (financeiramente, claro), a “criação de cursos ou seminários de empreendedorismo” e mais mas miudezas espalhadas pelas seis ou sete páginas destinadas à economia. É a política de VERDADE e o combate ao dirigismo da economia.
E depois há as partes deliciosamente requintadas. O PSD quer evitar a “proliferação desordenada, e sem critério, de benefícios fiscais”. Vai eliminar algum? Não. Vai simplificar alguma coisa? Também não. Em contrapartida, vai criar novos benefícios absolutamente indispensáveis. Por exemplo, uma “taxa de IRC de 10% durante dez anos para PME em que sejam maioritários jovens empresários, com idade inferior a 35 anos”. Por esta altura, o programa começa a ganhar contornos surreais.
Finalmente, restam os investimentos públicos, aquilo que, segundo Manuela Ferreira Leite, distingue de forma mais óbvia os dois partidos. Novamente, mais um compromisso sólido: travar tudo. Os projectos serão novamente analisados e sujeitos a escrutínio e só avançarão se forem mesmo necessários. De onde se depreende que serão de facto necessários.
Bom, por aqui o circo acabou. Venha o do CDS.