Essa coisa do livre arbítrio IV

Vergastadas as opiniões contrárias, está na altura de ser um pouco mais construtivo. Isto exige analisar os fundamentos da escolha. O livre arbítrio reside na capacidade de fazer escolhas livres e por isso é importante perceber exactamente de que forma é determinada cada decisão e processada a respectiva execução. Uma boa parte disto pode ser respondido pela neurobiologia, mas outra parte ainda (?) reside no campo da filosofia.

Quando agimos, fazemo-lo para atingir um fim. Algumas acções são instrumentais enquanto outras são fins em si mesmas. Eu trabalho porque o que recebo em troca me permite comprar as coisas de que necessito para viver e para me divertir. Como sopa à noite porque faz bem ao organismo mas o batido de manga com açúcar já é um fim em si mesmo (ou quase: na verdade, o fim é o prazer de o beber). Entre os dois há uma zona mista: quando chuto à baliza num jogo de futebol, faço-o simultaneamente porque me dá gozo mas também porque quero fazer com que a minha equipa ganhe o jogo.

A razão permite-nos identificar meios para atingir os fins. Não é igual para todos, já que a Natureza não foi equitativa na altura de distribuir a inteligência. Eu tomo banho para ficar limpo. O Rui passa um paninho húmido e põe desodorizante a ver se ninguém repara. Mas esta escolhã dos meios para atingir os fins é tão determinística quanto a solução de um computador para um determinado problema. Computadores melhores têm soluções melhores, mas o processo de escolha entre Rolls Royce e Ford Fiesta informáticos não é, na sua génese, diferente.

Mas e então como se definem os próprios fins? Aqui vou fazer uma suposição, que terá de ser alterada mais tarde: os próprios fins são dados. Os objectivos últimos da acção são a BIOS da nossa neurologia: as instruções básicas que vêm inseridas no hardware. Quais são? Basicamente, sobrevivência e procriação. Os outros objectivos são subprodutos destes dois e podem ser reduzidos a eles (ser bonito, poderoso ou rico, por exemplo, são formas fáceis de sobreviver mais e com mais descendência; por uma questão de eficácia, é possível que estas “instruções” já façam também parte da nossa BIOS).

E os objectivos que não se enquadram nesta categoria? Guy Fawkes, por exemplo, foi torturado durante três dias na Torre de Londres porque não revelou os nomes dos outros conspiradores da Gunpowder Plot. Parece óbvio que pôs um ideal abstracto à frente do sem bem-estar pessoal ou de qualquer eventual queca que ainda viesse a tempo de granjear. Como é que isto se explica?

Penso que a solução está na autonomização da racionalidade humana. A capacidade de raciocinar de forma abstracta foi seleccionada durante milhões de anos porque dava uma vantagem enorme na resolução de problemas complexos. Era um potencial enorme que aos poucos começou a ser usado para resolver problemas que não estavam estritamente ligados à sobrevivência – como a moralidade, por exemplo. Note-se que pensar acerca da moralidade foi apenas um efeito secundário da aprimoração de uma estrutura destinada a melhorar as probabilidades de sobrevivência e de reprodução. Mas, a partir do momento em que esta autonomia se fez, lançaram-se as bases para a criação de novos valores fundamentais que não os que estavam inscritos na BIOS inicial.

Este processo é inteiramente determinístico. Nascemos com uma dotação de objectivos a atingir. A nossa racionalidade permite-nos conhecer os meios através dos quais eles podem ser atingidos. Mas, de forma indirecta, permite-nos também alterar esses próprios objectivos. Naturalmente, isto exige reflexão. Mas essa reflexão é que é a causa da alteração dos nossos objectivos iniciais. E é a essa autonomização da função racional – a capacidade de esta se virar sobre si própria, olhando para a sua nuca – que damos o nome de consciência (uma coisa parecida com o que se defende aqui).

O leitor deste post, por exemplo, é uma complexa máquina determinística. A interacção da sua máquina cognitiva com a sua BIOS original fez com que desenvolvesse um interesse especial por temas ligados ao livre arbítrio. Se está contra o determinismo, então neste momento estará a tentar encontrar formas de refutar este post. Mas qualquer coisa que possa pensar – ou escrever na caixa de comentários – é o resultado da acção de um jogo entre a sua máquina cognitiva, a sua BIOS e o material recém-adquirido e processado: este post, precisamente. Tudo o que puder dizer é resultado preciso destas três variáveis de entrada.

É tentador pensar que esta é uma noção de livre arbítrio restrita. Não é. É a única que se pode ter. A ideia de um livre arbítrio sem qualquer constrangimento, uma espécie de liberdade pura, não faz sentido. Sem um objectivo que seja inicialmente dado, fico sem saber o que fazer (escolho? Mas escolho com base em quê?). A interacção entre a máquina cognitiva e esses objectivos é que pode, a prazo, criar novos objectivos – deterministicamente formados, claro.

Isto torna claro que alguns dos supostos problemas levantados em relação ao aparente conflito entre livre arbítrio e determinismo são apenas problemas de linguagem. Há quem diga que o livre arbítrio não pode ser determinista porque isso implica que não poderemos fugir dos constrangimentos impostos pela causalidade. Errado. Eu ajo como ajo porque aquilo a que alguns chamarão de “constrangimentos” são, na verdade, parte do meu ser. “Eu” não “sigo”o determinismo da minha consciência porque não faz sentido separar o meu “Eu” da minha consciência. Eu sou a minha consciência, uma máquina que é capaz de criar novos objectivos olhando para si mesma.

Assim, o livre arbítrio é apenas a existência de uma consciência que permita observar todas estas complexas interacções entre a BIOS, o funcionamento da máquina cognitiva, os resultados produzidos e toda a nova cadeia de embates que se geram a partir daí. Este texto forneceu material para as máquinas cognitivas dos leitores; os eventuais comentários, por sua vez, forncerão material para a minha.

2 Comentários

  1. Junho 27, 2009 às 12:46 am

    [...] & Ciência) Portanto, estive a falar do livre arbítrio e do determinismo: I, II, III, IV e V. As caixas de comentários estão [...]

  2. Junho 29, 2009 às 4:45 pm

    [...] aqui e agora. Pena é ela ter um nome tão horrível e um rabo tão peludo. (A propósito, ó Rêgo, eu não sou o como o Napoleão, que só tomou banho uma vez na vida.) Comentar Nome: [...]


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