Essa coisa do livre arbítrio V
Junho 27, 2009 às 12:42 am (Filosofia & Ciência)
A ideia do post anterior deixou-me pouco confortável durante algum tempo. Não porque contivesse alguma incongruência (penso que não contém) mas porque me parecia incapaz de lidar com um problema óbvio: se o determinismo é verdadeiro, então podemos calcular o futuro e fazer exactamente o contrário do que vimos ser previsto. Resultado: paradoxo. O Vítor Guerreiro também ficou fascinado pela questão.
Agora, parece-me que o problema não o chega a ser. Uns poucos passos de lógica e nem será preciso dar resposta: a própria pergunta dissolve-se. Imagine-se o exemplo extremamente original de uma bola metálica suspensa por uma corda no topo da Torre de Pisa. Sabemos que a corda se vai partir dentro de 5 segundos por efeito de um pequeno dispositivo previamente calibrado. Sabendo isso, conhecendo a constante g e a distância ao solo, podemos calcular o tempo que a bola vai demorar até atingir o chão.
Fazemos a experiência. Calculamos o tempo. Vamos ver e… nada. A bola não caiu. Vamos ver o vídeo. A explicação é simples. Quando ia a cair, a bola foi atingida por uma bola semelhante que foi projectada na perpendicular. Bateram e afastaram-se. Isso explica o facto de o nosso modelo determinístico ter falhado a previsão.
Será que isto revela que as bolas de metal não agem de forma determinística? Não. Mostra apenas que o nosso modelo inicial não continha todas as variáveis. Se tivéssemos inserido uma fórmula que permitisse calcular a trajectória da outra bola, poderíamos facilmente determinar o destino de cada uma. Com mais cálculos, é certo, mas em princípio isso poderia ser feito.
É isto que acontece com a hipótese do primeiro parágrafo. Suponhamos que eu tenho uma máquina de prever o futuro. Prevejo o que estará o meu vizinho a fazer amanhã pelas 9h00. Se eu me mantiver à margem dos acontecimentos, a previsão realizar-se-á. Mas se eu intervier, o modelo falha. Porquê? Não é porque a acção humana seja indeterminista. É porque a previsão inicial foi feita apenas para o futuro do meu vizinho, sem me incluir a mim. Eu seria o projéctil metálico intruso do exemplo anterior. Ao entrar na equação, causo uma perturbação num modelo que não foi concebido para levar em conta a minha intervenção.
Podemos tornar o exercício mais complexo. Será que é possível fazer a máquina prever o futuro de todo o Universo? Não. A resposta é simples. Para fazer uma previsão para todo o Universo, a máquina precisa de observar todo o Universo, para poder recolher os dados de todas as partículas existentes. Contudo, há uma limitação óbvia. O instrumento de recolha de dados não se pode observar a si mesmo. Ou seja, a máquina pode prever correctamente o futuro de todo o Universo excepto o seu próprio futuro.
Faço uma última tentativa. Se eu garantir que a máquina do futuro é colocada numa posição em que não tenha grande impacto no desenrolar dos acontecimentos, posso ter uma previsão bastante boa do futuro. Ela não levará em conta o seu futuro mas se o seu futuro for irrelevante, então podemos, na prática, conhecer o futuro do Universo. Faço a experiência: coloco a máquina em Júpiter, ponho-a a trabalhar e venho para a Terra.
A máquina está agora na posse da informação relativa ao futuro de todo o Universo. Tudo o que preciso de fazer é ir buscá-la e ver como vão ser as coisas amanhã – e, de seguida, fazer com que alguma coisa não se passe exactamente assim. Isto permitirá refutar o determinismo. Parece simples.
Mas não é. Quando eu abrir a máquina para ver a sua previsão, estou a torná-la de novo relevante para o futuro do Universo. Lembremo-nos de que ela não incorpora informação sobre si mesma. Por isso, quando eu a abrir vou deparar-me com informação “estragada”. Tudo funciona bem até ao momento em que decido espreitar lá para dentro. Uma limitação lamentável.
Assim, a máquina de facto previu que eu iria até Júpiter e que a iria abrir; mas previu que eu ficaria imensamente surpreendido ao ver que lá dentro não há nenhuma previsão! Porque, no momento em que recolheu os dados, a máquina não conseguiu recolher a informação que revelava que ela própria estava a recolher a informação para efectuar uma previsão. Assim, prevê um futuro no qual não terá feito qualquer previsão. A máquina pode prever qualquer evento excepto aqueles nos quais tenha um papel a desempenhar.
Isto permite ilustrar (ou confundir, conforme as opiniões) a impossibilidade de usar uma máquina deste género para prever o futuro e, de seguida, fazer algo que não tinha sido previsto. A previsão só é completamente fidedigna enquanto não for conhecida. A partir do momento em que algo interage com a informação (se eu a tentar conhecer, por exemplo), esta degrada-se imediatamente. Ou seja, o determinismo absoluto existe. Mas não podemos usá-lo para causar nenhum paradoxo.
Essa coisa do livre arbítrio IV
Junho 27, 2009 às 12:35 am (Filosofia & Ciência)
Vergastadas as opiniões contrárias, está na altura de ser um pouco mais construtivo. Isto exige analisar os fundamentos da escolha. O livre arbítrio reside na capacidade de fazer escolhas livres e por isso é importante perceber exactamente de que forma é determinada cada decisão e processada a respectiva execução. Uma boa parte disto pode ser respondido pela neurobiologia, mas outra parte ainda (?) reside no campo da filosofia.
Quando agimos, fazemo-lo para atingir um fim. Algumas acções são instrumentais enquanto outras são fins em si mesmas. Eu trabalho porque o que recebo em troca me permite comprar as coisas de que necessito para viver e para me divertir. Como sopa à noite porque faz bem ao organismo mas o batido de manga com açúcar já é um fim em si mesmo (ou quase: na verdade, o fim é o prazer de o beber). Entre os dois há uma zona mista: quando chuto à baliza num jogo de futebol, faço-o simultaneamente porque me dá gozo mas também porque quero fazer com que a minha equipa ganhe o jogo.
A razão permite-nos identificar meios para atingir os fins. Não é igual para todos, já que a Natureza não foi equitativa na altura de distribuir a inteligência. Eu tomo banho para ficar limpo. O Rui passa um paninho húmido e põe desodorizante a ver se ninguém repara. Mas esta escolhã dos meios para atingir os fins é tão determinística quanto a solução de um computador para um determinado problema. Computadores melhores têm soluções melhores, mas o processo de escolha entre Rolls Royce e Ford Fiesta informáticos não é, na sua génese, diferente.
Mas e então como se definem os próprios fins? Aqui vou fazer uma suposição, que terá de ser alterada mais tarde: os próprios fins são dados. Os objectivos últimos da acção são a BIOS da nossa neurologia: as instruções básicas que vêm inseridas no hardware. Quais são? Basicamente, sobrevivência e procriação. Os outros objectivos são subprodutos destes dois e podem ser reduzidos a eles (ser bonito, poderoso ou rico, por exemplo, são formas fáceis de sobreviver mais e com mais descendência; por uma questão de eficácia, é possível que estas “instruções” já façam também parte da nossa BIOS).
E os objectivos que não se enquadram nesta categoria? Guy Fawkes, por exemplo, foi torturado durante três dias na Torre de Londres porque não revelou os nomes dos outros conspiradores da Gunpowder Plot. Parece óbvio que pôs um ideal abstracto à frente do sem bem-estar pessoal ou de qualquer eventual queca que ainda viesse a tempo de granjear. Como é que isto se explica?
Penso que a solução está na autonomização da racionalidade humana. A capacidade de raciocinar de forma abstracta foi seleccionada durante milhões de anos porque dava uma vantagem enorme na resolução de problemas complexos. Era um potencial enorme que aos poucos começou a ser usado para resolver problemas que não estavam estritamente ligados à sobrevivência – como a moralidade, por exemplo. Note-se que pensar acerca da moralidade foi apenas um efeito secundário da aprimoração de uma estrutura destinada a melhorar as probabilidades de sobrevivência e de reprodução. Mas, a partir do momento em que esta autonomia se fez, lançaram-se as bases para a criação de novos valores fundamentais que não os que estavam inscritos na BIOS inicial.
Este processo é inteiramente determinístico. Nascemos com uma dotação de objectivos a atingir. A nossa racionalidade permite-nos conhecer os meios através dos quais eles podem ser atingidos. Mas, de forma indirecta, permite-nos também alterar esses próprios objectivos. Naturalmente, isto exige reflexão. Mas essa reflexão é que é a causa da alteração dos nossos objectivos iniciais. E é a essa autonomização da função racional – a capacidade de esta se virar sobre si própria, olhando para a sua nuca – que damos o nome de consciência (uma coisa parecida com o que se defende aqui).
O leitor deste post, por exemplo, é uma complexa máquina determinística. A interacção da sua máquina cognitiva com a sua BIOS original fez com que desenvolvesse um interesse especial por temas ligados ao livre arbítrio. Se está contra o determinismo, então neste momento estará a tentar encontrar formas de refutar este post. Mas qualquer coisa que possa pensar – ou escrever na caixa de comentários – é o resultado da acção de um jogo entre a sua máquina cognitiva, a sua BIOS e o material recém-adquirido e processado: este post, precisamente. Tudo o que puder dizer é resultado preciso destas três variáveis de entrada.
É tentador pensar que esta é uma noção de livre arbítrio restrita. Não é. É a única que se pode ter. A ideia de um livre arbítrio sem qualquer constrangimento, uma espécie de liberdade pura, não faz sentido. Sem um objectivo que seja inicialmente dado, fico sem saber o que fazer (escolho? Mas escolho com base em quê?). A interacção entre a máquina cognitiva e esses objectivos é que pode, a prazo, criar novos objectivos – deterministicamente formados, claro.
Isto torna claro que alguns dos supostos problemas levantados em relação ao aparente conflito entre livre arbítrio e determinismo são apenas problemas de linguagem. Há quem diga que o livre arbítrio não pode ser determinista porque isso implica que não poderemos fugir dos constrangimentos impostos pela causalidade. Errado. Eu ajo como ajo porque aquilo a que alguns chamarão de “constrangimentos” são, na verdade, parte do meu ser. “Eu” não “sigo”o determinismo da minha consciência porque não faz sentido separar o meu “Eu” da minha consciência. Eu sou a minha consciência, uma máquina que é capaz de criar novos objectivos olhando para si mesma.
Assim, o livre arbítrio é apenas a existência de uma consciência que permita observar todas estas complexas interacções entre a BIOS, o funcionamento da máquina cognitiva, os resultados produzidos e toda a nova cadeia de embates que se geram a partir daí. Este texto forneceu material para as máquinas cognitivas dos leitores; os eventuais comentários, por sua vez, forncerão material para a minha.
Essa coisa do livre arbítrio III
Junho 26, 2009 às 11:55 pm (Filosofia & Ciência)
Há uma subtileza oculta na aparente contradição entre o determinismo e o livre arbítrio. O argumento típico é que o determinismo físico se alarga ao mundo mental e que isso choca com a nossa liberdade de escolha. Bom, mas é possível arranjar uma forma de o determinismo poder ser um bocado suavizado e, assim, abrir um espaço para o livre arbítrio.
É aqui que alguns gostam de meter a mecânica quântica. Não me vou debruçar sobre os aspectos mais técnicos da coisa. Nem vou discutir se o indeterminismo faz parte da realidade das partículas subatómicas ou se é apenas uma limitação provocada pela interferência do observador. A mecânica quântica é suficientemente complicada para que os físicos se limitem a fazer os cálculos sem pensarem muito na realidade subjacente das contas. É no mínimo prudente que um tipo formado em letras também evite esses caminhos tortuosos.
Por isso, vou apenas assumir que a mecânica quântica envolve indeterminismo. Estou a dar de barato que há alguns fenómenos a nível subatómico cuja ocorrência é meramente probabilística. Isto permite encontrar algum espaço para introduzir o livre arbítrio. É um buraco pequeno onde enfiar a nossa capacidade de escolha, mas é o melhor que se arranja. E, de facto, o próprio Karl Popper defendeu que o nosso livre arbítrio agia ao nível quântico, através das várias possibilidades permitidas pelo princípio de incerteza (bom, eu vi-o defender isto num artigo; não sei se manteve esta opinião até ao fim dos seus dias).
Mas será que esta tese é defensável? Há um argumento forte que lhe corrói os alicerces: se os eventos “especiais” da mecânica quântica não têm causas determináveis, então isso significa dizer que a origem do nosso livre arbítrio reside no acaso. A fuga ao determinismo é feita para uma jaula ainda mais desoladora. Ora, isto é um beco sem saída: se é acaso, não é escolha. E muito menos livre arbítrio.
É verdade que às vezes fazemos escolhas e tomamos decisões consoante nos dá na cabeça. É dessa forma que eu escolho o chá que tomo à noite. Mas a grande maioria das nossas decisões resulta de um processo interno e complexo de racionalização. Até as escolhas do Carlos Queiroz têm um resíduo de racionalidade, embora ocultas sob o véu diáfano da incompetência. Há um encadeamento lógico de ideias e meter aqui o acaso não só deixa o problema do livre arbítrio por resolver como ainda complica mais as coisas.
E quanto à ideia de Popper de que o livre arbítrio actua através das possibilidades da mecânica quântica? Permanecem dois problemas. O primeiro é óbvio: Popper limita-se a aliviar a bola para longe da área; o perigo, no fundo, permanece. Se escolhemos através das possibilidades oferecidas pelo indeterminismo da mecânica quântica, qual é o fundamento dessas escolhas? O que é que me faz decidir por uma opção ou por outra? Isto, que é o mais importante, permanece por explicar.
O segundo problema é ainda mais gritante. Nós pura e simplesmente não escolhemos enviar um electrão para aqui ou fazer outro aparecer acolá. As nossas decisões são tomadas ao nível macro: pegar no comando da televisão, fechar o tampo da sanita, etc. O exercício do livre arbítrio não está ligado ao colete-de-forças da realidade subatómica, mas sim à riqueza do mundo macroscópico.
Essa coisa do livre arbítrio II
Junho 26, 2009 às 11:44 pm (Filosofia & Ciência)
O argumento mais fácil a favor do determinismo deriva da aceitação do atomismo básico. Tendemos a pensar que existem coisas como cães, garfos e gajas boas. Num certo sentido, isso é verdade. Existem de facto imensos cães, imensas portas e imensas gajas boas (embora não tantas quanto porventura fosse desejável).
Mas não há uma fronteira nítida entre categorias. Os cães são fáceis de distinguir porque todos os ancestrais comuns que os ligavam a outros grupos taxonómicos estão mortos. Mas, se estivessem vivos, seria virtualmente impossível fazer uma separação clara. Mesmo os critérios biológicos para determinação de espécies falham em circunstâncias limite.
Isto acontece porque as diferenças entre quaisquer coisas são sempre de grau e não de género. Homens, pedras e talheres são todos feitos de átomos. Só o arranjo é que varia. E entre o extremo mais complexo e a pontinha mais básica há todo um continuum ininterrupto. Os nossos ascendentes primatas lembram-nos que a fronteira que separa os animais dos humanos é ténue e porosa. A existência de seres como o Cristiano Ronaldo mostra-nos que, na prática, ela é frequentemente transposta.
Ok, e o que isto a ver com o livre arbítrio? Tudo. Se não há uma diferença fundamental entre os homens e o resto dos seres – desde os macacos até aos compostos azotados que estiveram na nossa origem –, então também não pode haver nenhuma cisão entre um mundo material preso ao determinismo e um mundo mental alegremente livre. O dualismo cartesiano não sobrevive a um exame minucioso.
Isto é um bom argumento a favor do determinismo total mas continua sem dar uma explicação satisfatória para a sua compatibilização com o livre arbítrio. Continua a parecer aberrante a ideia de que tudo está determinado e que, ainda assim, somos livres. Infelizmente, um post não dá para tudo. Mas é exactamente por isso que muitos mais vêm aí…
Essa coisa do livre arbítrio I
Junho 26, 2009 às 11:34 pm (Filosofia & Ciência)
O determinismo afirma que qualquer acontecimento é consequência de uma causa. E esta causa é, por sua vez, consequência de uma outra causa prévia qualquer. É um raciocínio simples mas que tem um corolário interessante. Se tudo é efeito de algum evento anterior, então bastará conhecer todos os eventos passados para ser possível prever todos os eventos futuros. Está tudo previamente determinado.
Esta noção é trivial nalguns domínios. Restam poucas dúvidas de que as órbitas planetárias sejam regidas por equações precisas, que permitem não só prever os movimentos futuros mas também calcular as posições no passado. Quem tiver dúvidas, pode fazer os cálculos por si mesmo. Mas, em domínios como a acção humana, a ideia de que está tudo pré-determinado afigura-se aberrante e contra-intuitiva.
Porquê? Porque parece óbvio que a nossa vontade não segue nenhum ditame externo. Temos a sensação de que a nossa acção é determinada livremente por nós mesmos, fugindo à rigidez de qualquer equação. Esse sentimento profundo parece incompatível com a noção de que estava tudo determinado. O homem subterrâneo de Dostoiévski pede que lhe digam o que espera a ciência que ele faça – apenas para que possa fazer exactamente o contrário e assim mostrar como a natureza humana foge a qualquer previsão.
Este aparente paradoxo costuma levar alguns filósofos a dizerem que o determinismo absoluto não pode ser verdadeiro, uma vez que colide com a noção bastante bem alicerçada de livre arbítrio. Outra forma de contornar o problema é estabelecer uma espécie de dualismo cartesiano entre o determinismo do mundo físico e a liberdade do mundo mental – algo que é ensaiado pelo Joaquim Sá Couto, por exemplo.
Acontece que eu penso precisamente o contrário. Não só o livre arbítrio é compatível com o determinismo como, na verdade, este último é condição essencial para a possibilidade de existir de facto livre arbítrio. A longa, pesada e enfastiante série de posts que se segue argumenta a favor desta tese.
Gatos não ensinam a ladrar
Junho 26, 2009 às 10:24 am (Ensino)
No Diário Económico de ontem, o cronista António Gomes Mota defendeu a introdução de uma cadeira de incentivo à inovação nas escolas públicas. O diagnóstico subjacente está correctíssimo. Os portugueses não têm apetite pelo risco, têm medo de inovar e, pior, não convivem bem com o sucesso alheio. Isto nota-se desde a perseguição fiscal aos “ricos” até à forma como os bons alunos tendem a ser mal vistos nalgumas das nossas escolas.
Mas há algo de errado com a panaceia proposta. Inculcar novos valores depende em grande medida do exemplo que se dá. E o que o cronista propõe é que sejam os professores do ensino público a ensinar às crianças como é que se arrisca. As mesmas pessoas que ocupam uma das profissões mais seguras e estáveis da sociedade, uma boa parte das quais escolheu precisamente esta profissão porque não conseguiu entrar no mercado de trabalho da respectiva área de formação. É como pedir ao Papa para dar aulas de educação sexual.
Não estou a diabolizar os professores do ensino público. Há óptimos professores que são muito bons naquilo que fazem. Mas há aqui um problema claro de selecção adversa. Quem deseja genuinamente arriscar torna-se empresário. Ou emigra., para escapar a esta choldra. Não vai para a função pública. E o que é que a criançada vai pensar quando vir o professor a incentivar o risco dentro de portas e a marchar contra a avaliação nas ruas de Lisboa?
Incentivar o empreendedorismo não se faz através do Estado. Faz-se exactamente pela via inversa: diminuindo o peso do Estado. Menos Estado significa mais concorrência, menos corrupção, menor probabilidade de captação de recursos públicos para a promoção de interesses privados e mais incentivos ao trabalho e à tomada de riscos, até pela concomitante diminuição dos impostos. E isto serve melhor que qualquer doutrinação.
Recomendado II
Junho 21, 2009 às 7:30 pm (Blogosfera, Ensino, Eutanásia, Filosofia & Ciência, Recomendado, Ética e Moral)
Ainda na Crítica, Aires Almeida publica um ensaio no qual uma aluna sua argumenta vigorosamente em favor da aceitabilidade moral da eutanásia. A criança chama-se Ekaterina Kucheruk e, pasmem-se, tem apenas 18 anos.
Resta-me aplaudir a rapariga, que consegue articular ideias de forma bem mais consistente do que alguns professores com quem eu tive a infelicidade de me deparar. E dar os parabéns ao Aires Almeida – e, de forma geral, a toda a equipa da Crítica -, por tudo o que têm vindo a fazer pelo ensino de filosofia.
Recomendado
Junho 21, 2009 às 7:22 pm (Blogosfera, Ensino, Patranhas, Recomendado)
Educação para a cidadania, por Aires Almeida.
Muitos dos nossos políticos, pedagogos e cientistas da educação enchem a barriga com a ideia de educação para a cidadania. Parece até que descobriram a pólvora. Mas que a educação serve para formar cidadãos é uma ideia tão velha quanto a própria ideia de educação. Os gregos chamavam-lhe paideia. Que ideia é essa? Bom, é a ideia de que formar cidadãos é ensinar-lhes a falar, a escrever, a contar, a argumentar, a avaliar, a pensar por si. Estas são as ferramentas necessárias para uma cidadania plena e esclarecida. Em suma, formar cidadãos plenos é ensinar-lhes bem Português, Matemática, Biologia, História, Filosofia, etc. Quem aprende bem estas coisas está em boas condições para se tornar um cidadão esclarecido. O resto é quase só ruído ideológico.
Free will
Junho 21, 2009 às 7:15 pm (Blogosfera, Filosofia & Ciência)
Este aqui é um dos temas mais fascinantes da filosofia. Comecei inicialmente a pensar nele quando, nas aulas de biologia, me deparei com o mecanismo que permite accionar os músculos. Se o movimento muscular é provocado pelo deslizar de proteínas (a actina e a miosina, mais concretamente), o que é que causa este deslizamento? Se são os sinais vindos do cérebro ou da espinal medula, o que é que causa, por sua vez, estes sinais? É uma pergunta do caraças.
Ia tentar escrever alguma coisa acerca disto mas a falta de tempo acabou por inviabilizar o post (algo que os leitores certamente agradecerão). Com a semana agora a começar, é improvável que venha ainda a ter tempo para escrever seja o que for. Mas se de facto não disser mais nada a respeito disto, fica registado que não concordo nada, mas mesmo nada, com o Joaquim.