Esta semana, a casa recomenda o inimitável Golden Soap, o intratável monstro do meio campo e o maravilhoso os segredos da bola. Imperdíveis. Uns mais que outros.
A Irlanda, essa estranha economia
Abril 26, 2009 às 2:17 am (Economia, Patranhas)
No Expresso de hoje, Daniel Oliveira ocupa três parágrafos a cravar mais um prego no caixão do capitalismo. O título do texto é «Olhem para a Irlanda». Mas depois de ler a prosa do cronista fiquei com a nítida sensação de que quem precisa de olhar bem para a Irlanda é próprio Daniel Oliveira. A crónica é algo deste género.
Durante anos, economistas-ideólogos e alguns empresários reunidos no Compromisso Portugal repetiram: olhem para a Irlanda. Impostos muito baixos para as empresas, leis laborais muito flexíveis e desregulação do mercado (…) A sua economia está prestes a colapsar. Porquê? Porque apostou na flexibilidade, na desregulação e na exposição absoluta aos riscos externos.
A crise nasceu devido a má avaliação de risco no sector financeiro. Em termos estritamente económicos, não há razões para que um IRC baixo tenha grande impacto no tipo de activos que os bancos compram ou no tipo de pessoas a quem decidem conceder crédito. Por isso, confesso que sinto-me tentado a dizer que o Daniel Oliveira escolheu arbitrariamente um exemplo em função das conveniências e depois atirou o barro à parede.
Infelizmente, o barro não cola. Em baixo segue uma lista de países com o peso da recessão em cada um. Os cálculos são meus e foram feitos com base no crescimento composto dos anos 2008, 2009 e 2010. O número representa a variação do PIB de cada economia tendo como base o valor de 2007. É um bom método para ver quem é que sofre à séria com a crise.

De facto, é verdade que é a Irlanda que mais sofre. Mas a seguir vêm Itália, Alemanha, Dinamarca, Portugal e Suécia. Tudo países com impostos baixos e pouca regulação, como todos sabemos. E no fundo da tabela aparecem os Estados Unidos, a Eslovénia e a Eslováquia. São estas três utopias socialistas que, da amostra seleccionada, melhor se safam. Os últimos dois conseguem mesmo crescer em período de crise.
Como se vê, não há nenhuma relação entre desregulação e sensibilidade. A haver, até seria inversa, funcionando a Irlanda como a excepção que confirma a regra. A amostra, claro, é limitada. Mas sempre é mais representativa do que inferência de caso único patrocinada pelo Daniel Oliveira. Esta é a diferença entre a economia séria e economia talhada à medida dos preconceitos de cada um.
Além do mais, é preciso matizar a gravidade da crise tendo em conta os níveis de riqueza. Perder 10% do rendimento para um rico equivale a comer menos vezes fora. Perder 5% do rendimento para um pobre pode significar começar a passar fome. O gráfico em baixo mostra como é que a coisa funciona, analisando o PIB per capita de cada país. O PIB é expresso em dólares, em paridade de poder de compra, o que faz com que seja perfeitamente comparável.

É verdade que nos últimos 28 anos o PIB per capita subiu para todas as economias. Mas o da Irlanda subiu de forma abrupta desde a década de 90. É a tal coisa do liberalismo selvagem. Não foi preciso muito tempo para ultrapassar o PIB francês e italiano, historicamente mais alto. Quanto ao português… bom, o melhor é nem falar.
E isto ainda põe em evidência outro aspecto. Como se viu, não há grande relação entre desregulação e volatilidade económica. Mas, mesmo que houvesse, o jogo de risco da Irlanda teria compensado largamente. Mesmo que a economia entre em contracção, o seu PIB per capita ainda será, depois da crise, cerca de 75% superior ao nosso antes dela. Numa palavra: vergonhoso.
O Daniel Oliveira diz ainda qualquer coisa relativa a não nos podermos esquecer da Irlanda quando «sairmos deste buraco e os vendedores de milagres arrebitarem». Não podia estar mais de acordo.
Um problema do caralho
Abril 6, 2009 às 11:55 pm (Desenvolvimento, Economia, África)
Mas afinal por que razão é que os países africanos continuam tão indigentemente pobres apesar de toda a ajuda financeira internacional? É perfeitamente possível que a culpa recaia sobre a corrupção que grassa entre as elites encarregues de fazer a gestão dos apoios. Mas também é possível que seja outra coisa completamente diferente.
O gráfico abaixo mostra o PIB per capita da Etiópia, Malavi e China. Os valores são expressos em ordem ao primeiro número, que é 100. Isto invalida comparações absolutas entre países mas o importante aqui é uniformizar taxas de crescimento e não valores absolutos. O gráfico é relativo ao período 1980-2006, para o qual é relativamente fácil encontrar dados (que, neste caso, são do FMI).

PIB per capita
O que vemos? Um crescimento impressionante da riqueza per capita na China e uma estagnação nos casos do Malavi e Etiópia. De facto, os habitantes do Malavi tinham, em 2002, apenas cerca de 86% da riqueza per capita que se verificava 22 anos antes, apesar disso não ser claro no gráfico. O PIB per capita africano não revela nenhuma tendência de crescimento no longo prazo.
Os gráficos seguintes ajudam a entender porquê. Apresentam o PIB e a população para os mesmos países, usando a mesma metodologia (base=100) e para o mesmo período. Da sua leitura constata-se que o problema não está (só) no crescimento económico – o PIB africano de facto aumenta. O problema é que a população aumenta na mesma medida. Os ganhos de produtividade são rapidamente ‘comidos’ pela demografia.

PIB e população da Etiópia

PIB e população do Malavi

PIB e População da China
O contraste com a China é enorme. Aqui, o crescimento económico faz-se sobre uma população praticamente estável desde os anos 80. O resultado é que o chinês médio de 2006 tem oito vezes mais riqueza que o chinês médio de 1980, enquanto que o etíope médio de 2006 vive pior do que o etíope médio de 1980. Em compensação, tem mais filhos sobreviventes.
Isto pode ajudar a explicar o falhanço da ajuda internacional. Os milhões e milhões de dólares que todos os anos são enviados para África são ineficazes porque limitam-se a dar vazão aos apetites sexuais dos africanos. Mais riqueza não significa melhores salários mas sim mais reprodução. O crescimento económico na China produz mais carros e mais televisões; em África, só produz mais filhos. No fundo, é um problema do caralho.