O Phillipe disse aqui que a nossa moral actual está impregnada de aroma cristão. É preciso ter cuidado quando se diz uma coisa destas. Afinal de contas, a moral cristã é uma coisa muito lata e comporta episódios caricatos. Por exemplo, a mensagem central de que somos todos culpados porque alguém há muito tempo comeu uma fruta que não devia é uma patetice. E a ideia de que para nos ilibar é preciso massacrar um inocente na cruz é, mais do que pateta, doentia.
O resto do Antigo Testamento também tem outras coisas absurdas. Por exemplo, admite-se o massacre de povos vizinhos (se estiverem na Terra Prometido, que isto de amor ao próximo é uma exigência relativa), aconselha-se o apedrejamento dos adúlteros e, segundo o meu amigo Marcos Sabino (fonte segura na matéria), eleva-se à categoria de prescrição moral o enterrar dos dejectos expelidos.
A partir do Novo Testamento a coisa suaviza um bocado mas a verdade é que Jesus também disse que não vinha desdizer o Antigo Testamento. E depois aceitou entrar naquela rábula de sacrificar-se para redimir a humanidade dos pecados que ela própria tinha cometido. De qualquer forma, a conclusão é óbvia: a Bíblia tem tanta mixórdia intragável que dificilmente se pode dizer que serviu de inspiração para alguém.
A maior parte dos crentes defende que a Bíblia exige uma leitura hermenêutica. Curiosamente, a hermenêutica é traçada à medida das conveniências e acaba sempre num exaltar laudatório dos poucos pontos minimamente aceitáveis e numa relativização e tresleitura daquilo que é manifestamente repugnante. Faz lembrar aqueles adeptos para quem um erro do árbitro é um falhanço humano se dá a vitória à sua equipa e um roubo escandaloso se resulta num lançamento de linha lateral para o adversário.
Contudo, o Phillipe fala dos 10 Mandamentos, o que é um ponto interessante. Os 10 Mandamentos são recomendações bastante preto-no-branco e que, por isso, são fáceis de analisar sem intromissões de exegetas da treta. É preciso fazer a suposição simplista de que os 10 Mandamentos são de facto a verdadeira mensagem mas, como ponto de partida, não é mau. Bom, dá mais luta do que analisar o Levítico.
Começo pelo meio. O quinto mandamento é claro: não matarás. O sétimo também: não roubarás. O oitavo é a mesma coisa: não prestarás falso testemunho. Estes três parecem legítimos e recomendáveis. Mas não são exclusivo da Bíblia e estão implícitos em muitas outras religiões, como o budismo ou o hinduísmo, sendo que este último até é bem mais antigo que o cristianismo.
Aliás, estas três regras são mais ou menos comuns a todas as civilizações porque sociedades nas quais não haja nenhum mecanismo capaz de coarctar o homicídio desenfreado, o roubo ou a mentira, acabam por colapsar. Não é por acaso que, neste ponto, os juízos morais tendem a assumir uma constância impressionante que atravessa culturas e religiões, conforme se constata pela pesquisa nesse campo. Não matar e não roubar não foram prescrições do Deus cristão: foi apenas a inscrição na pedra de juízos morais já então existentes e que precediam os hebreus.
O quarto mandamento manda honrar o pai e a mãe. E o sexto pede para evitar os adultérios. Mais uma vez, e pelo menos no primeiro caso, a ideia não é nova e é explorada de forma bastante mais profunda pela ética oriental (bastante mais antiga que a ocidental). Mas pronto, admita-se estes dois com o rótulo de ‘remake’.
O pior vem a seguir. Os dois últimos mandamentos mandam não cobiçar a mulher e a casa do próximo. De facto, não fica bem fitar a mulher do vizinho de cima a baixo enquanto vai a passar pelo corredor, mas mais por conveniência social do que propriamente por imperativo moral. E, se não lhe tocarmos, pois que nos deixem ao menos fantasiar à vontade. Não há mal nenhum em cobiçar a casa do Bill Gates ou a namorada do Cristiano Ronaldo. Eu próprio não recrimino os milhares de miúdas que um pouco por todo lado salivam pressurosamente por mim.
Já os dois primeiros mandamentos são de morrer a rir: não ter outro Deus que não o único e imitável Deus cristão e não dizer o seu nome em vão. Isto é equivalente à disciplina de voto no campo religioso e não, não é regra moral que se faça. Desde há alguns aninhos que a liberdade religiosa tem precedência sobre a prescrição caduca da tabuleta. E dizer o nome em vão também não é crítica que se possa apontar.
O terceiro pede para santificar o domingo. É verdade que não trabalhamos aos domingos mas isso é por direito plasmado no Código do Trabalho, não por prescrição moral regurgitada pelo pároco da freguesia. Aqui há que distinguir entre o que é uma garantia laboral e o que é uma paragem forçada em louvor do Senhor. Uma diferença importante para garantir que ninguém se sinta culpado de querer trabalhar ao domingo.
Sintetizando, que o post já vai longo: não, a nossa moral não tem inspiração cristã. Pelo menos metade dos Mandamentos é estapafúrdia e a restante metade limita-se a recapitular prescrições éticas anteriores ao Antigo Testamento e transversais à maioria das culturas. Usar a Bíblia para estudar a moral é como usar os livros do Homem Aranha para compreender Nova Iorque: grande parte do que lá vem está errado e o que está certo pode ser encontrado noutra fonte qualquer.