Plano anti-crise

Portugal também já tem o seu plano anti-crise. É a derradeira oportunidade de o Governo se juntar à vanguarda europeia no combate à Grande Depressão que vem aí. Depois do Plano Paulson, do Plano Obama, do Plano Gordon Brown e do Plano Barroso, vamos ter o Plano Manuel Pinho. Só de pensar já assusta.

O mais curioso neste plano é que é composto por medidas que só têm efeito em 2009, e algumas delas apenas em 2010. Isto é interessante porque a crise deve agudizar-se exactamente no último trimestre deste ano. Ou seja, o plano vai começar a fazer efeito na altura em que a crise começar a passar.

Isto, claro, partindo do pressuposto de que tem algum efeito. Agora está na moda falar de keynesianismo. Mas o keynesianismo pressupõe que a despesa pública tem um efeito multiplicador. Ou seja, os gastos do Governo têm de aumentar o rendimento da população de modo a que um incremento da procura volte a fazer a economia carburar.

Ora, se o Medina Carreira estiver certo em relação ao comportamento da procura interna, um aumento dos rendimentos terá sobretudo efeito no aumento das importações e não na procura de bens nacionais. Ou seja, o aumento da despesa pública vai aumentar rendimentos que se vão escoar pelas fronteiras. A única coisa que vai ficar cá dentro será a dívida pública usada para financiar o défice.

E isto levanta outra questão. Com tantos países a acorrerem aos mercados internacionais para colocarem a sua dívida, as taxas de juro vão necessariamente subir. Portugal vai estar a competir com os EUA e com o Reino Unido. A que custo vai conseguir impingir a sua dívida? O ministro Teixeira dos Santos tem dito que é importante uma acção coordenada entre os vários países e que o actual momento constitui uma grande oportunidade. Neste ponto, tem razão: é uma grande oportunidade para pedir dinheiro emprestado a taxas de juro pornográficas.

Mas depois ainda há as medidas concretas do plano. A mais espectacular é o reforço do investimento nas energias renováveis. Ou seja, em tempo de crise, o Governo promete endividar-se para pagar às pessoas para não utilizarem as energias mais baratas. A tradicional visão estratégica do Governo.

E depois dá-se o regresso dos famosos estágios profissionais, embora desta vez apenas para os jovens que tenham saído de cursos com menor empregabilidade. Parece que a ideia é mais ou menos esta: 1) subsidiar cursos que não interessam a ninguém; 2) no processo, manter cargos académicos obsoletos, desvirtuar o sistema de preços e promover o desemprego; 3) pagar pela integração dos licenciados em cursos que não interessam a ninguém; 4) no processo, continuar a manter cargos académicos, desvirtuar o sistema de preços e desincentivar a procura de cursos com mais empregabilidade; 5) esperar que venha o Alegre culpar o neoliberalismo selvagem do desemprego jovem. Tenham lá paciência, mas isto não é uma medida contra a crise. Isto é uma medida conjuntural para ajudar a manter um problema estrutural.

O que a coisa não é

Para compreender o que é que os tumultos na Grécia não significam, recomenda-se a leitura de A revolução grega e a crise internacional, Consumismo chega às pedras da revolução, o Estado Social e o sistema de castas, Chegou a revolução, patética como a anterior.

Por exemplo, no 5 dias explicam-nos que os jovens estão revoltados contra o desemprego, contra os salários baixos e contra o consumismo. Que aqueles jovens não consigam arranjar emprego não me surpreende. Eu também não estaria disposto a contratar delinquentes. O que eu não percebo como é que eles podem estar ao mesmo tempo revoltados contra os salários baixos e contra o consumismo. Quem é contra o consumismo quer um salário elevado para quê?

Capitalismo especulativo

Bom, parece que acabei de ganhar 10€ sem tirar o traseiro da cadeira.

Respostas simples

As corridas eleitorais a associações estudantis são sempre áreas de estudo interessantes. Ontem, a lista A da AAUM repetiu a vitória do ano passado. A vitória foi grandiosa: mais de 83%, uma maioria absoluta estrondosa. O número equivale a cerca de 2300 votos e 85% de abstenção.

As explicações pululam. Uns dizem que os alunos estão extremamente satisfeitos com a actuação da lista vencedora; outros agitam o espectro dos partidos; e outros dizem que os estudantes se sentem afastados da democracia interna (que raio quererá isto dizer?).

Há explicações mais simples. O mais óbvio: os estudantes estão-se a marimbar para a associação de estudantes não por descrença nessa treta da democracia académica mas porque o desinteresse é o estado natural da maior parte do rebanho. Não há grande sociologia aqui.

As propinas, por exemplo, são baixas em relação às despesas internas das Universidades. Estudar custa pouco ao estudante em relação àquilo que custa ao contribuinte. Naturalmente, não se podia esperar grande exigência ou compromisso. Estudantes que não se importam com a educação que têm não se vão importar se o presidente da associação académica promete ou não maior acções de formação ou seja o que for. Desde que a bebedeira de fim de ano esteja garantida, não há problemas de maior.

Isto explica a abstenção. Para explicar os 2354 votos no vencedor, basta ter em mente que a lista em causa tem cerca de 300 apoiantes. Isto significa 300 pessoas com bilhete de borla para o Enterro da Gata. Já são 300 votos certinhos. A partir daí, basta que cada um convença seis ou sete pessoas a pôr a cruzinha no sítio certo e está o caldinho cozinhado.

P.S.- O eleito Pedro Soares disse que os estudantes escolheram a lista com propostas e ideias. Era engraçado saber quantos estudantes que efectivamente votaram conheciam, de facto, as propostas da lista em causa. Palpite meu: uma boa parte dos próprios eleitos não sabiam sequer o que propunham.

Mudanças que a crise trouxe

O Governo vai salvar o BPN. Ou seja, vai usar dinheiro dos contribuintes para ajudar um banco privado de dimensão reduzida e completamente irrelevante para a estabilidade do sistema financeiro. O BPN geriu mal os seus activos e tomou más opções financeiras? O ministro Teixeira dos Santos tem uma opinião diferente.

Ao mesmo tempo, Manuel Pinho já anunciou que também vai haver um plano de salvação para a indústria automóvel. A ideia subjacente é salvar os postos de trabalho dos empregadores mas o dinheiro vai para as próprias empresas. Já dá para ter uma ideia de quem vai lucrar com isto.

Claro que apesar de toda a solicitude deste Governo, a crise financeira vai ter efeitos concretos. Alguns postos de trabalho vão ser destruídos e a taxa de desemprego vai subir. Sem surpresa, os mais afectados serão os jovens e os trabalhadores pouco qualificados.

Isto vai exigir mais programas de formação e apoios aos rendimentos. E como a pobreza não é apenas um problema de dinheiro mas também de integração, serão contratados mais assistentes sociais e sociólogos diversos. Ninguém espera que a Segurança Social actue sem meios.

Bancos privados, milionários, indústria automóvel, máquina do Estado e parasitas diversos. Esta crise não é má para todos: há sempre quem saia a ganhar. São é sempre os mesmos de sempre. Bem-vindos ao Estado Social.