O problema da lupa

O Hugo Torres diz aqui (mais concretamente na caixa de comentários) que a solução para o sistema público de ensino é Rigor. E factos: números e, na impossibilidade destes, mostrar todos os pontos de vista (possíveis) — divergentes ou apenas diferentes.

Sou tentado a concordar. Ter manuais de História mais rigorosos e com mais factos é um bom passo para melhorar o ensino. Depois só é preciso melhorar os manuais de Filosofia. E rever o programa de Biologia. E o de Português. Ah, e as cadeiras práticas. Pôr alguns professores a trabalhar também dava jeito. E depois é só recompensar os que já trabalham.

Quem olhar para as coisas à lupa vai ver milhões de microproblemas que exigem milhões de microsoluções. Mas quem encostar a lupa por um momento e vir as coisas de cima vai ter outra perspectiva. Vai perceber que um serviço com maus manuais, programas ultrapassados e professores desinteressados é um subproduto de um sector monolítico e que actua em regime de monopólio.

A questão dos manuais em particular é interessante. Os políticos portugueses oscilam, na sua maioria, entre o socialismo bacaco e a social-democracia assistencialista. Leram os mesmos livros e as mesmas obras. E são eles que aprovam os manuais e que escolhem os responsáveis educativos que vão, por sua vez, supervisionar a política educativa. Tendo em conta esta estrutura hierárquica, que manuais é que esperavam? Obras do Stuart Mill?

O problema é de fundo, não é contingente. Maus manuais, maus programas e maus professores não são micro-problemas que exigem micro-soluções. São problemas inerentes a um sistema centralizado que não podem ser curados através do próprio sistema centralizado. Não se pode pedir ao cancro que se cure a si mesmo.

Faz lembrar o socialismo. O socialismo também é uma excelente ideia que tem vindo a ser posta em prática de forma incorrecta. Mas a solução está ao virar da esquina. Basta tornar a economia mais produtiva e fazer com que os homens aceitem nacionalizar os lucros e privatizar as perdas. O socialismo funciona bem se tirarmos tudo o que nele funciona mal. Basta mudar o homem. Vão ver como a coisa corre bem.

P.S.- Melhorar a educação não exige que se deixe os pobrezinhos sem escola. Apenas exige a introdução de mecanismos concorrenciais que permitam a liberdade de escolha por parte de quem paga a educação e a autonomia educativa por parte de quem a vende.

8 Comentários

  1. Hugo Torres disse,

    Setembro 22, 2008 às 3:43 pm

    Ora, é precisamente no post scriptum que se encontra o pequeno problema que te deixei nos comentários do outro post. Depois, se no privado há quem consiga vender um bom produto, tal significa que essa pessoa existe, que leu, quem sabe, as obras de Mill, que não se limitou a ler «os mesmos livros e as mesmas obras» dos demais. Como existe e é contratada pelo ensino privado, também pode ser contratado e posta ao serviço do ensino público.

    Mais a mais, a concorrência entre escolas já existe. Nas públicas. Cada uma a querer ser melhor que as restantes. Sejam universidades ou secundárias. Vejam-se as listas elaboradas todos os anos. E foi, aliás, por aqui, que provoquei o Rui, escrevendo que «a leviandade com que se trata o ensino é só o mercado a ajustar-se aos novos paradigmas imediatistas e culturalmente desinteressados da actual sociedade». O cúmulo disto está mesmo a chegar de cima, de ME: facilitar nos conteúdos em prol da estatística. O problema, visto de cima, é este: é a concorrência dos números.

    Ainda lembro bem a porrada de gente que se deslocou, entre o 11.º e o 12.º, para uma privada no Porto (éramos da Póvoa de Varzim) por forma a melhorar notas e poder deslizar melhor para a universidade. Talvez tenham mesmo aprendido mais e melhor no colégio etc., conseguindo assim melhores notas…

  2. Hugo Torres disse,

    Setembro 22, 2008 às 3:45 pm

    Ah! Só uma adenda: este último e irónico parágrafo deve também ter direito à alegoria «não se pode pedir ao cancro que se cure a si mesmo».

  3. pedroromano disse,

    Setembro 22, 2008 às 7:50 pm

    Hugo,

    «Depois, se no privado há quem consiga vender um bom produto, tal significa que essa pessoa existe (…) Como existe e é contratada pelo ensino privado, também pode ser contratado e posta ao serviço do ensino público.»

    Esse argumento serve que nem uma luva ao socialismo soviético. Se há pessoas boas a trabalhar no sector privado, também podem trabalhar no sector público. E por que não pôr todas no sector público?

    «Mais a mais, a concorrência entre escolas já existe. Nas públicas. Cada uma a querer ser melhor que as restantes.»

    Tendo em conta que:

    a) cada escola tem a sua clientela assegurada (o aluno ou fica na escola da sua zona de residência ou paga uma privada);

    b) a política educativa é escolhida de forma centralizada e não pode ser usada por cada escola como uma forma de acrescentar valor em relação às outras;

    Tendo em em conta isto, as escolas estão a concorrer exactamente pelo quê? E de que forma é que o podem fazer, dado que todas oferecem o mesmo?

    Onde é que vês concorrência entre escolas que não podem escolher os professores, os programas, os materiais didáticos, as políticas educativas, o modelo de relação aluno-professor; e que, mesmo que tivessem essa liberdade, não poderiam lucrar nada com isso?

  4. Hugo Torres disse,

    Setembro 22, 2008 às 11:03 pm

    Meu camarada,

    se aquele argumento assenta que nem uma luva no socialismo soviético ou no brasileiro, não me importa nada. Queres dizer com isto o quê? Que contratar bons trabalhadores para o sector público é má política, ou fruto de tiques estalinistas? Não percebo… Pôr todas no privado? Pois, está bem. Onde é que isso difere de pô-las todas no público? Já não é assim que funciona? Proposta, contraproposta, i do, etc., está feito, núpcias. (Eu não quero acabar com o privado; tu é que queres acabar com o público.)

    Depois, quanto à área de residência, é mentira. Podemos olhar para o caso evidente das universidades, ou para as moradas alheias apresentadas a matrícula, porque aquela escola é melhor, etc., no caso do 1.º ciclo.

    Da concorrência entre as escolas: disse-te onde a via — nos números, nas estatísticas. E o resultado dessa concorrência é uma tendência para facilitar nos conteúdos em favor dos resultados estatísticos. Já olhaste para a diferença nas médias de acesso às universidades entre este ano lectivo e o anterior? Às tantas, estudaram todos muito, muito, muito, porque sabem que os tempos estão difíceis… Ora, não me fodam! (Ou fodam, mas não por aí.)

    E esta inflação estatística é prática corrente nas privadas há, pelo menos (do mais não sei), nas escolas privadas. Que, portanto, é mais um daqueles exemplos práticos que te dou e que tu preferes não pegar. Se continuarmos no plano académico e deixarmos de ver a realidade, até parece que estamos a debater no comité central soviético de há 70 anos, pá. O que seria uma lástima. :P

  5. Hugo Torres disse,

    Setembro 22, 2008 às 11:05 pm

    * E esta inflação estatística é prática corrente nas privadas há, pelo menos (do mais não sei), uma década nas escolas privadas.

  6. Setembro 23, 2008 às 12:25 am

    [...] Hugo, novamente na vizinhança, escreveu que acha que os bons professores do ensino privado renderiam o mesmo no sector [...]

  7. pedroromano disse,

    Setembro 23, 2008 às 11:08 am

    Hugo,

    Eu não digo que contratar bons trabalhadores para o sector público seja má político. Digo que é uma política que não vai acontecer porque a própria estrutura do sistema público encarrega-se de expulsar os melhores e de segurar os piores.

    O paralelismo com socialismo surge porque é essa mesma falácia que o torna uma ideia atractiva. Teoricamente é possível empregar os melhores trabalhadores numa sociedade estatizada; na prática, a própria lógica de um sistema em que não é possível lucral e em que o laxismo não é penalizado faz com que ninguém tire o rabo do assento para fazer seja o que for.

    Quanto às universidades, são geridas de uma maneira diferente, e de uma forma bastante mais eficiente: os fundos são atribuídos em função dos alunos e há liberdade de escolha por parte dos próprios alunos. Isto é uma boa aproximação a um tipo de sistema que poderia ser implementado nas escolas do ensino básico e secundário.

    A concorrência ‘estatística’ de que falas também é um problema de sistemas públicos. Quando a educação está subordinada a um Governo prestes a ir a eleições é normal que haja a tendência para facilitar e poder mostrar bons números. Isto é uma fantochada bonita para o eleitor mas é péssimo para o aluno; e seria certamente evitada por muitos pais se houvesse possibilidade de escolher outras escolas.

  8. Hugo Torres disse,

    Setembro 23, 2008 às 1:41 pm

    Terminando,

    posso concordar contigo aqui: «A concorrência ‘estatística’ de que falas também é um problema de sistemas públicos. Quando a educação está subordinada a um Governo prestes a ir a eleições». Mas não vejo as privadas a alterar o paradigma e poderiam fazê-lo. Não?

    Depois, digo apenas que isto não tem de ser verdade: «(…) na prática, a própria lógica de um sistema em que não é possível lucrar e em que o laxismo não é penalizado faz com que ninguém tire o rabo do assento para fazer seja o que for». Não há razão para o Estado não penalizar os maus trabalhadores. Aliás, não é o que já começa a ser feito? (Digo isto, confesso, sem saber os comos do processo, se está bem, se corre mal, se é máscara para poupar dinheiro, se há melhores alternativas de avaliação, etc.) O que nos leva ao primeiro parágrafo do teu último comentário.


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