Não entra mosca

Pedro Arroja, sobre a cultura católica e os portugueses.

Uma sociedade como a americana com uma profunda cultura de especulação (na finança, na ciência, nas ideias) é uma sociedade onde a informação é abundante e está facilmente disponível. Pelo contrário, uma sociedade, como a portuguesa, profundamente conservadora e avessa à especulação, quer no domínio das coisas materiais quer no domínio das coisas do espírito, não precisa de informação para nada e, portanto, não a produz nem a procura. Foi este o sentido deste post.

Acresce que dada a sua cultura católica, a sociedade portuguesa é uma sociedade de pessoas muito faladoras, que emitem opinião sobre tudo e sobre nada. Como argumentei repetidamente noutras ocasiões, a cultura católica privilegia as palavras em detrimento das acções.

Coloquemos agora as duas características em conjunto: pessoas mal informadas e que estão sempre a falar e a emitir opinião sobre tudo e sobre nada. Quando abrem a boca, então, o resultado mais provável é “ou entra mosca…”. É este o sentimento predominante que tenho tido ao ler e ouvir as apreciações nos meios de comunicação convencionais – jornais, rádio e televisão – à crise financeira actual e, em particular, à crise americana. A melhor literatura a este respeito, curiosamente, tem ocorrido na internet graças, em parte, aos esforços do João Miranda, que é um excelente especulador de ideias.

Não pode ser diferente porque então não seria o que é

Alberto João Jardim já tem um argumento contra os casamentos homossexuais. Não é grande coisa, mas já é um avanço. A ideia é que o casamento entre homossexuais deve ser proibido porque o casamento é só entre sexos diferentes.

Bom, eu tenho uma boa solução. Alargar o casamento aos homossexuais. A partir do momento em que o casamento passar a ser entre pessoas do mesmo sexo, já não se pode dizer que o casamento é só entre sexos diferentes. E esta, hein?

Os “problemas” do ensino privado

É evidente que o ensino privado não pode concorrer com o público. As escolas privadas têm de cobrar propinas para pagar os professores, o estabelecimento e o material. Nas escolas públicas, a cobrança é coerciva. O financiamento é feito através de impostos e não há possibilidade de escolha.

Isto não invalida que haja escolas privadas de boa qualidade; mas complica a vida do empresário que quiser investir no mercado do ensino. Não porque a concorrência tenha particular qualidade mas porque uma escola privada tem 5000€ per capita de desvantagem em relação a uma escola pública (é o valor da despesa pública portuguesa anual com cada aluno, segundo a OCDE).

Esta disparidade de meios abre duas possibilidades a quem quiser investir na educação. A primeira é criar escolas de qualidade caríssimas, disponíveis apenas aos podres de ricos, que podem pagar as propinas qualquer que seja o seu valor. Toda a gente conhece casos destes: aulas em inglês, viagens desportivas ao estrangeiro, professores de altíssimas qualidade. Coisa de gente rica.

A segunda possibilidade é explorar nichos de mercado, como o nicho dos alunos sem miolos – mas com dinheiro – para pagar boas notas e licenciaturas. Boa parte das universidades e escolas secundárias limitam-se a vender diplomas e títulos de passagem de ano.

Num mercado funcional, estes títulos desvalorizariam rapidamente. As licenciaturas destas pseudo-universidades contariam pouco no mercado de trabalho e as médias de 20’s e 19,’s nas escolas privadas facilitistas valeriam tanto para ingressar na universidade como um 10 ou um 11 obtido numa escola minimamente qualificada.

Mas não existe um mercado funcional em Portugal. Os títulos inflacionados de algumas universidades e escolas privadas são mantidos artificialmente altos por imposições legais com força de lei. Há pelo menos duas formas de isto acontecer (bom, deve haver muitas, mas eu só me lembro destas duas).

A primeira é o sistema de colocação de alunos nas universidades públicas. O sistema de selecção é centralizado através de uma ponderação entre a média e os exames nacionais. O sistema não discrimina entre boas notas obtidas numa boa escola e boas notas obtidas numa má escola. Como o sistema não pode ser adaptado à oscilação do valor dos certificados, torna-se vulnerável a um certificado sem valor emitido por uma escola sem qualidade mas cuja validade é garantida pelo selo ‘escola aprovada pelo Ministério da Educação’.

Seria fácil mudar isto: bastava que as Universidades tivessem liberdade para definir a sua própria política de selecção, introduzindo um factor de ponderação da ‘qualidade’ das notas ou, alternativamente, um exame prévio à admissão. Como sabemos, é impossível. O sistema de selecção é determinado pelo Estado – contingências de um sistema universitário público sem autonomia.

A segunda forma é através da limitação corporativa do acesso à profissão. Há imensas profissões cujo exercício está subordinado à aquisição de uma licenciatura ou inscrição na respectiva Ordem profissional. Se o trabalhador não tem de conquistar as preferências do cliente/empregador mas sim arranjar forma de entrar nas malhas do sistema, uma Universidade que garanta um título sem esforço pode ser preferível a uma Universidade que ensine alguma coisa mas não garanta o canudo.

Por fim, note-se que as limitações corporativas e o processo de selecção da alunos universitários centralizado é um problema do Estado, não é um problema dos privados. Os “problemas” do ensino privado são apenas o subproduto de um sistema público ineficiente e de imposições legais inadequadas.

O problema da lupa

O Hugo Torres diz aqui (mais concretamente na caixa de comentários) que a solução para o sistema público de ensino é Rigor. E factos: números e, na impossibilidade destes, mostrar todos os pontos de vista (possíveis) — divergentes ou apenas diferentes.

Sou tentado a concordar. Ter manuais de História mais rigorosos e com mais factos é um bom passo para melhorar o ensino. Depois só é preciso melhorar os manuais de Filosofia. E rever o programa de Biologia. E o de Português. Ah, e as cadeiras práticas. Pôr alguns professores a trabalhar também dava jeito. E depois é só recompensar os que já trabalham.

Quem olhar para as coisas à lupa vai ver milhões de microproblemas que exigem milhões de microsoluções. Mas quem encostar a lupa por um momento e vir as coisas de cima vai ter outra perspectiva. Vai perceber que um serviço com maus manuais, programas ultrapassados e professores desinteressados é um subproduto de um sector monolítico e que actua em regime de monopólio.

A questão dos manuais em particular é interessante. Os políticos portugueses oscilam, na sua maioria, entre o socialismo bacaco e a social-democracia assistencialista. Leram os mesmos livros e as mesmas obras. E são eles que aprovam os manuais e que escolhem os responsáveis educativos que vão, por sua vez, supervisionar a política educativa. Tendo em conta esta estrutura hierárquica, que manuais é que esperavam? Obras do Stuart Mill?

O problema é de fundo, não é contingente. Maus manuais, maus programas e maus professores não são micro-problemas que exigem micro-soluções. São problemas inerentes a um sistema centralizado que não podem ser curados através do próprio sistema centralizado. Não se pode pedir ao cancro que se cure a si mesmo.

Faz lembrar o socialismo. O socialismo também é uma excelente ideia que tem vindo a ser posta em prática de forma incorrecta. Mas a solução está ao virar da esquina. Basta tornar a economia mais produtiva e fazer com que os homens aceitem nacionalizar os lucros e privatizar as perdas. O socialismo funciona bem se tirarmos tudo o que nele funciona mal. Basta mudar o homem. Vão ver como a coisa corre bem.

P.S.- Melhorar a educação não exige que se deixe os pobrezinhos sem escola. Apenas exige a introdução de mecanismos concorrenciais que permitam a liberdade de escolha por parte de quem paga a educação e a autonomia educativa por parte de quem a vende.

Esse papão do capitalismo

O Eduardo Jorge Madureira diz no Avenida Central que, quando os que mandam no capitalismo têm lucros, a maior parte da gente perde; quando os que nele mandam têm prejuízos, a maioria das pessoas perde também.

Presumo que os progressos dos últimos 250 anos nos países capitalistas devam, portanto, ser assacados ao socialismo. Só fico sem saber quem culpar pelos falhanços do socialismo. Hum, o capitalismo?

Leitura recomendada

A atitude dos portugueses em relação à regulação, por João Miranda.

O comércio de combustíveis devia ser regulado.

Já é. A Autoridade para a Concorrência regula o comércio de combustíveis.

Mas então a Autoridade para a Concorrência devia investigar o preço dos combustíveis.

Já investigou.

Mas então devia investigar outra vez.

Já investigou várias vezes.

Mas então devia explicar porque é o preço da gasolina sobe quando o petróleo desce.

A Autoridade para a Concorrência já explicou que a gasolina está cotada em euros e o petróleo em dólares.

Mas então devia explicar porque é o preço da gasolina só desce 5% quando o petróleo desce 10%.

A Autoridade para a Concorrência já explicou que o preço da gasolina inclui uma taxa fixa de impostos que não varia com o preço o petróleo.

Mesmo assim, a Autoridade para a Concorrência devia explicar porque é que a gasolina não desce mais.

A Autoridade para a Concorrência já explicou que segue o preço da gasolina nos mercados internacionais e não o preço de petróleo.

Mas então …

Hey

Já está inaugurada a secção biblioteca. É só clicar.

Argumentos contra a ‘Escola Pública’

Os manuais de História ensinam aos meninos que o comunismo foi positivo para a economia, que o Exército Zapatista é um “movimento social” e que a globalização quer transformar o mundo num “vasto casino”. Não são panfletos do PCP, são livros de História aprovados pelo Ministério da Educação.

Especulação

Parece que se gerou o consenso de que a subida do preço do crude há uns meses (atingiu os 150 dólares) se deveu à especulação. Afinal de contas, a procura de crude por parte da economia real não oscila o suficiente para fazer com que uma matéria-prima perda mais de um terço do valor em três meses.

Concordo com a ideia. Mas há uma nuance a explorar. Se foi o aumento da procura por parte dos especuladores a pressionar os preços há uns meses, então tem sido o aumento da oferta por parte dos mesmos especuladores a baixar as cotações. Sem especuladores, o preço seria hoje substancialmente mais elevado.

Agora é que vai ser

Carlos Queiróz está com a fantástica média de uma derrota em cada dois jogos. Ontem meteu um pigmeu chamado Moutinho contra os matulões da Dinamarca e colocou um guarda-redes que teve culpas em dois dos três golos. Fantástico. Deve ser mais um que não percebe um corno de táctica e que vem para a selecção com filhos e afilhados.

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