No DN de ontem, Anselmo Borges volta à carga, desta vez com a aposta de Pascal. Algo deste género:
Aqui precisamente, aparece a aposta de Pascal. Lá está o texto célebre dos Pensamentos: “Examinemos este ponto, e digamos: ‘Deus existe ou não existe.’ Para que lado nos inclinaremos? A razão não o pode determinar. Mas é preciso apostar. Não é coisa que dependa da vontade. Já estais embarcados. Que escolha fareis? A vossa razão não será mais lesada por escolherdes uma coisa de preferência à outra, pois é necessariamente forçoso escolher. Eis um ponto assente. Mas a vossa felicidade eterna? Ponderemos o ganho e a perda, escolhendo Deus. Ponderemos estes dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada, Apostai, pois, que Deus existe, sem hesitardes.” Em termos simples, quase banais.
Simples e quase banais não seriam os adjectivos que usaria para qualificar os termos em que Pascal expõe a sua proposta. Eu iria mais pelo simplista e pelo pateta, mas ok. De qualquer das maneiras, a aposta tem dois problemas.
Em primeiro lugar, propõe a instrumentalização da religião. Os axiomas são simples e a conclusão inabalável: deus é todo poderoso; deus gosta de ser adorado e recompensa quem o adora; logo, adorar deus dá um bilhete directo para uma vida celeste das boas. Não falha.
Não falha mas transforma o crente num especulador. Adora-se não porque isso seja um dever ou alguma coisa correcta mas porque é um bom investimento a longo prazo. O crente torna-se um gestor de risco. Convenhamos que não é das formas mais nobres de adorar o altíssimo. E, caso ele descubra o engodo, a brincadeira até pode sair cara. Nisto de deuses, convém manter bem presente que além de omnipotentes também são omniscientes.
Para além disto, a aposta é ingénua. E até pode virar-se contra o apostador. Pascal propõe um quadro convenientemente limitado. Temos um deus e duas possibilidades: acreditar ou não. Eu proponho que sejamos mais abrangentes. Vamos antes considerar vários deuses em concorrência: o dos cristãos, o dos judeus, o dos muçulmanos, os dos nórdicos, os dos gregos, os dos romanos, e por aí fora.
A coisa fica mais complicada porque agora quem errar arrisca-se a ter de apanhar com um gang de deuses irados e furiosos por não terem ficado em primeiro na casa de apostas. Além da primeira opção acreditar/não acreditar, há que fazer uma segunda opção: acreditar em quem? Um analista da bolsa aconselharia um portfolio de deuses cuidadosamente escolhido, de forma a distribuir o risco. Mas como a maioria dos deuses só funciona em regime de exclusividade, o melhor talvez seja não apostar em nenhum. Não se ganha o céu, mas também não se arrisca o inferno.