Momento Tatcher

Editorial de André Macedo. No Diário Económico.

França sofreu o mesmo caos há uma semana. Paralisação dos transportes, os serviços públicos bloqueados, as empresas privadas com quebras na produtividade. Ou seja, dias perdidos, os nervos em franja de um país inteiro, mais violência e carros queimados nas ruas. Feitas as contas, a economia francesa perdeu 0,1% do PIB por uma exigência injusta de um grupo de amotinados. É evidente que a idade da reforma deve subir até aos 65 anos – para todos, aqui ou em França – se queremos dar um balão de oxigénio ao depauperado Estado Social. Os que se manifestaram nas ruas de Paris não pensam assim. Pensam, claro, nos direitos adquiridos. As bailarinas e outros privilegiados reformam-se 20 anos antes dos outros e recebem a totalidade das pensões. De quando é a lei? Coisa para uns anitos: 1698. Isso mesmo: 1698, a corte de Luis XIV. Belos tempos. Quanto custa ao Estado francês sustentar este delírio anacrónico? Seis mil milhões de euros por ano. No país com a taxa de desemprego mais alta da zona euro, acima dos 9%, o melhor é cortar por algum lado. Sarkozy tem razão: este é o momento Thatcher dele. É agora ou nunca.

Viajemos agora para outro país longínquo no outro lado do mundo, para a Índia, onde Sócrates participa nas próximas horas na cimeira UE- -Ásia. O que vemos aqui, neste enorme subcontinente? Muita pobreza, bairros de lata, sujidade, fome à séria nas ruas. Mas há mais coisas a acontecer. Na Índia, vale sempre a pena olhar, porque há sempre alguma coisa para ver. Há greves? Também, claro, é um direito importante para o equilíbrio das sociedades democráticas e a Índia é a maior democracia do planeta. No entanto, mais do que greves, aqui impõe-se a energia do trabalho. É preciso criar riqueza, assumir os riscos, investir. É preciso sobreviver. Há 16 anos, em 1991, o país não tinha sequer dinheiro para pagar a conta da luz. Poderia ter ficado às escuras. Foi preciso desvalorizar a rupia em 30%, em apenas três dias para trazer os contadores a zero e recomeçar. É essa a história fantástica que tem sido escrita na última década. As multinacionais Infosys, Wipro, Tata, muitos cérebros (um terço dos engenheiros de todo o mundo), são a poderosa alavanca humana que produz um crescimento anual de 10%. Na Índia ou na China não há petróleo: há trabalho. A Europa em geral – e Portugal em particular – deveriam olhar menos para os direitos adquiridos e mais para a revolução que está a acontecer aqui ao lado. Na verdade, enfrentamos todos o nosso momento Thatcher: ou vai ou racha.

Esquizofrenia

O Bloco de Esquerda quer que o Parlamento faça um voto de repúdio às declarações de Alfred Hoffman, embaixador americano em Portugal. Parece que o tipo não respeita a soberania portuguesa e passa a vida a meter o nariz no que não lhe diz respeito.

Convém referir que estamos a falar do Bloco de Esquerda, o partido cujo passatempo favorito é bater na política externa americana, na legislação laboral americana, no presidente americano, no sistema económico americano e na pena de morte americana. Os americanos, esses, parecem pouco preocupados com o que o Bloco de Esquerda diz deles.

29/11/07

Copiar os outros

A partir de agora, também passo a actualizar diariamente o meu filtro pessoal. O primeiro dia já foi filtrado.

Queria meter a série como uma página lateral, mas parece que esse sistema não contempla um esquema de entradas diárias, como a página principal do blogue. Sendo assim, fica como está. Feio, mas útil. Até já tem um marcador: adivinhem lá – filtro.

P.S.- Quem souber de uma forma de passar o filtro para o sistema de páginas laterais pode fazer a favor de explicar na caixa de comentários?

28/11/07

Pagar o sexo alheio

O Robin dos Bosques das quecas no Blasfémias. Partes II, III, IV, V e VI.

Este comentário ilustra na perfeição o fenómeno conhecido por anestesia fiscal. Poucos relacionam as dificuldades na carreira, a falta de casa, de qualidade de vida, os problemas que as mulheres têm no mercado de trabalho, a estabilidade no emprego e os horários pesados com os impostos. À primeira vista estes problemas não têm nada a ver com o facto de o Estado levar 50% do rendimento de cada um. Mas, claro, se só levasse 25%, seriam 25% a mais para que cada um pudesse comprar uma casa mais cedo, tivesse melhor qualidade de vida, menos preocupações com a estabilidade no emprego e menos necessidade de aceitar horários pesados. Se as mulheres tivessem mais 25% de rendimento disponível de certezinha que estariam muito menos preocupadas com os problemas que têm na carreira. E se a economia privada tivesse mais 25% de rendimento, desenvolver-se-ia muito mais rapidamente.

Já vomito sociologia de casa de banho

Os meninos dos subúrbios parisienses bateram na polícia fancesa. O François Hollande quer uma resposta republicana, educativa e cidadã (ou cívica – desconfio sempre das traduções do DN). Onde é que eu já vi isto?

Mas oiça, meu jovem, é que…

O padre Anselmo Borges escreveu um texto para o Diário de Notícias. Fui ler e tive de parar a meio. O texto é igual – palavra por palavra – ao discurso que o padre Anselmo proferiu quando veio falar a Braga, a propósito de um conjunto de conferências na Biblioteca Craveiro da Silva. Fui comparar com o texto que escrevi na altura acerca do evento e as citações batem certo. Definitivamente, este parece ser o único método dos teólogos: martelar até entrar.

De qualquer forma, o padre Anselmo Borges diz (disse?) algumas coisas engraçadas. Passo às citações comentadas.

Falando desses conflitos [entre ciência e religião], é inevitável que venham à ideia sobretudo os casos de Galileu e Darwin. Ora, na raiz do equívoco, esteve – e ainda está, quando se pensa nos criacionistas americanos, que defendem o ridículo de uma leitura literal da Bíblia – o facto de se não ter percebido que a Bíblia não é um livro de ciência, mas de carácter religioso. Nisso, Galileu foi mais avisado do que os seus censores: a Bíblia não diz “come va il cielo, ma come si va in cielo”, pois não é um livro de astronomia, mas de religião.

Ok, a Bíblia é um livro religioso e não um livro científico. Até aí já tinha chegado. O problema é que afirmar a religiosidade de um livro é irrelevante para a verdade dos factos que ele enuncia. Os livros do Tio Patinhas não passam a ser verdadeiros por dizermos que são livros de banda desenhada e não livros científicos. A religião pode fugir à ciência, mas não pode fugir à verdade.

O fim dos conflitos não significa que não possam e devam dialogar, com vantagens mútuas. É sabido, por exemplo, que o cristianismo, ao desdivinizar o mundo, pela fé bíblica na criação, abriu espaço à investigação científica livre. Por outro lado, também a partir da lição que ela própria teve de aprender, a teologia prevenirá para o perigo de imperialismo da ciência.

Um deus que é um e que é três, um anjo que aparece a anunciar um salvador vindouro, mares que se abrem, pães que se multiplicam, universos em seis dias, serpentes que falam, mulheres virgens com filhos. É inestimável o contributo que o cristianismo deu para a desdivinização do mundo.

Mas, vá lá, ao menos abriu caminho à investigação científica livre. Aliás, os criacionistas não fazem outra coisa a não ser incentivar a investigação científica livre. O padre Anselmo tem um um conceito muito lato de liberdade.

A religião tem de colocar-se no seu domínio próprio e saber claramente que não pode contradizer a ciência. Também aprendeu que a experiência religiosa tem um carácter “verificável-plausível”: a fé não pode ser cega nem irracional e tem de dar razões, que convencerão uns e não outros, mas são razões publicamente argumentáveis.

Razoável para um religioso? Esperem até verem as razões «publicamente argumentáveis»

A teologia está atenta aos avanços da ciência e respeita a sua autonomia, que a impede de utilizações apologéticas indevidas. Mas, como escreve o teólogo A. Torres Queiruga, “tendo em conta o enriquecimento do conhecimento do real trazido pela ciência, reelabora a partir de si mesma e na sua lógica específica os seus próprios conceitos”.

Os conceitos da ciência têm muitas vezes aquela irritante característica de serem precisos e concretos, o que impede a sua instrumentalização para fins indevidos, como corroborar as previsões da astrologia ou provar a existência de Deus. Por isso é natural que às vezes precisem de ser afinados e reelaborados dentro de uma «lógica específica».

Assim, por exemplo, se, tradicionalmente, se pensou que, enquanto a realidade sublunar estava submetida à mudança e à corrupção, a supralunar era incorruptível, imutável e perfeita, desde Galileu sabemos que não há esta diferença e que a realidade empírica toda é contingente, impondo-se com mais intensidade a pergunta: porque existe algo e não nada? Precisamente a contingência radical leva a pensar o Absoluto, fundamento último da realidade contingente.

Felizmente, existem teólogos como Anselmo Borges que se dedicam a explicar a religião aos fiéis usando razões «publicamente argumentáveis». É uma sorte que temos. Caso contrário sujeitávamo-nos a apanhar com uma patranha absurda e incompreensível. Depois deste parágrafo, apenas um fundamentalista ateu pode continuar a persistir no erro de negar a existência divina.

O Ludwig Krippahl dedicou uma óptima entrada a este tema. Fica um cheirinho.

No Diário de Notícias de ontem, Anselmo Borges escreveu sobre «O Diálogo Ciência-Religião» (1). Mas diálogo só tinha no título. Num diálogo os interlocutores tentam chegar a consenso conciliando, corrigindo ou eliminando ideias. O que Anselmo Borges propõe é «a autonomia de cada uma das esferas e dos respectivos campos de intervenção», e que a «religião tem de colocar-se no seu domínio próprio e saber claramente que não pode contradizer a ciência.» Concordo que não contradiga, mas de se um dos intervenientes não pode contradizer o outro não há diálogo. Só conversa de barbearia.

O Padre Anselmo escreve semanalmente no Diário de Notícias. Vou passar a estar mais atento, mas no que toca ao capítulo da risota desenfrada, a minha preferência vai continuar a ir para o César das Neves.

Ama-nos a todos

Não resisto a transcrever uma das mais deliciosas trocas de comentários que já vi. No Ktreta.

Ludwig Krippahl: É possível que evidências futuras me venham a convencer que o universo foi criado por um ser omnipotente e omniscience e que é esse que os católicos adoram como um deus.

O meu ponto nesse último parágrafo é que não há evidências que me vão convencer a adorá-lo como um deus. Posso amar, respeitar ou admirar alguém, mas não há qualquer propriedade que um ser tenha que possa invocar em mim a adoração.

Pedro Silva: Chocante. Um cientista dogmático, incapaz de mudar face à realidade. Um ateu intolerante e fanático. A verdade é como o azeite, lá diz o povo.

Ludwig Kripphal: Tenho boas evidências que há clubes de futebol. Mas isso não basta para que seja um adepto incondicional de um deles, que vá gritar para o estádio ou agredir os adeptos dos outros clubes quando o meu perde.

Com os deuses é o mesmo, só que nem evidências tenho da sua existência.

Pedro Silva: O que está a dizer não faz o mínimo sentido. Muito bem que não acredite em Deus, esse livre arbítrio é talvez o maior dom que recebemos.

Mas se tivesse a prova inegável da existência de Deus, seria impossível não O amar! O coração do Homem foi feito para Deus, e só ficará satisfeito quando estiver cheio d´Ele, que é a fonte de todo o amor. Todos os homens desejam a felicidade, depois podem é tentar encontrá-la por caminhos errados. Como é possível dizer que não quer ser feliz, só para não “ter de amar” a Deus, que o fez e que o ama acima de tudo? Isto é impossível de perceber.

(…) Foi Quem me criou, Quem fez toda a criação para mim, Quem me ama acima de tudo. Quem para me salvar da minha própria infidelidade, Se humilha ao ponto de Se fazer humano, passar por todas as nossas limitações, sofrer às nossas mãos, e ser morto, para depois ressuscitar. Quem está sempre disposto a perdoar o meu egoísmo, sem por nenhum obstáculo à misericórdia. É possível não adorar Este, sem O qual estou incompleto? A resposta é: não!

Ludwig Krippahl: Se é verdade que um ser omnipotente se fez passar por humano para ser humilhado e torturado dois mil anos antes de eu nascer convencido que isto era necessário para perdoar os meus pecados eu não sinto amor. Sinto pena, preocupação, e um cagaço de todo o tamanho, porque esse tipo além de doido tem uma noção tão deturpada do que é justo e decente que até assusta…

Pedro Silva: sabendo que a sua mãe sentiu dores de parto para poder nascer, sente o que?

E sabendo que muitas vezes ficou acordada à noite por sua causa, o que sente?

E se tem noção dos inúmeros sacrificios que fez por sua causa, o que está a sentir?

Gratidão e amor? Ou injustiça e indecencia?

Ludwig Krippahl: O amor que sinto pela minha mãe não depende de eu ter nascido de cesariana ou de parto natural, nem dela ter ou não recebido uma epidural. E preocupava-me com a sua sanidade mental se ela me dissesse que tinha escolhido sofrer dores atrozes só para eu gostar mais dela.

Se houver um deus omnipotente que não faz nada cada vez que uma criança pisa uma minha, que deixa nascer bebés defeituosos e que não se importa com as atrocidades feitas em seu nome penso que será muito fácil não o amar. Nem me vejo sequer a simpatizar com ele…

Mais um ateu fanático, está visto.

Boas intenções, más consequências II

E a segunda parte da resposta aqui vai. Desculpem lá a seca. Na citação em baixo, o primeiro comentário é meu e o segundo é do próprio jornalista do Público.

a) lucros elevados numa actividade tendem a fomentar o investimento nessa área. O aumento do investimento gera maior procura pela mão-de-obra nesse ramo da actividade e o aumento da procura puxa os salários para cima.

a) Não se tem notado nada;

Claro que se tem notado. Tem-se notado nos últimos 200 anos em geral e, de forma mais acentuada, nas últimas seis décadas. É incrível como nos esquecemos desta realidade, mas de facto vivemos hoje muito melhor do que no tempo dos nossos avós. Hoje em dia, a grande maioria das pessoas possui computadores ou telemóveis com que há 40 ou 50 anos nem os magnatas do petróleo sonhavam.

Há uma explicação fácil para o progresso económico: o próprio progresso tecnológico. É uma explicação boa, mas incompleta. O progresso tecnológico, por si mesmo, não gera riqueza; sem um sistema de preços que oriente a alocação dos recursos produtivos para as actividades mais necessárias – ou seja, as mais rentáveis – os progressos tecnológicos não valem de nada. O progresso tecnológico é um bisturi afiado, mas só funciona se tiver um bom cirurgião a guiá-lo.

E os salários têm aumentado por uma razão simples: temos um sistema de preços que permite que os progressos tecnológicos sejam bem utilizados, nas quantidades necessárias e nas actividades em que fazem falta. Numa palavra: eficiência. A eficiência traz riqueza e a riqueza traz salários altos. Ganhamos mais hoje? Claro. Porque produzimos muito mais.

É a riqueza que melhora a nossa vida. Não são as ‘conquistas sociais’ dos sindicatos ou as leis que garantem a ‘justiça social’. Os ‘direitos sociais’ são a expropriação que os sindicatos fazem das conquistas do capitalismo: o capitalismo aumenta o PIB e os sindicatos chamam-lhe ‘conquistas’. Mas a realidade vai no sentido inverso: é porque a riqueza aumenta que as exigências dos sindicatos podem ser suportadas. Experimentem criar sindicatos na Etiópia e esperem (sentados) a ver o que acontece.

É por isso que a China, que proíbe os sindicatos mas que abraçou o capitalismo, vê os salários subirem 10% ao ano e tira milhares da pobreza todos os meses. E é por isso que Portugal, que tem sindicatos mas que não tem lá grande capitalismo, vê os seus salários bem quietinhos, lado a lado com a inflação, ano após ano.

E este processo é natural. Não depende da boa vontade das pessoas – o que é óptimo, porque estas têm dado provas do quão ingénua é a suposição de que o homem é, no fundo, um tipo porreiro. O capitalismo é como aquelas meias que também podem ser usadas do avesso: quando os homens são bons, a qualidade de vida prospera; quando os homens são maus, a qualidade de vida prospera na mesma. O Bill Gates contribui para a sociedade quer esteja a trabalhar na Fundação Bill & Melinda Gates, quer esteja a vender Windows na Microsoft: dá emprego a informáticos e dá sistemas operativos a consumidores de informática.

Diz-se que o capitalismo aumenta a desigualdade. Talvez aumente, mas é melhor ter um rico e três remediados do que quatro pobres com diarreia. A igualdade não é, em si, um bem desejável (embora a igualdade de oportunidades possa ser); mas a luta por condições de vida melhores em sentido absoluto é um objectivo que todas as sociedades deviam almejar. A desigualdade do capitalismo nasce devido à criação de ricos, não devido à criação de pobres. E, no processo, todos melhoram. Alguns mais do que outros, e daí a desigualdade.

Mas mesmo este ponto é discutível e depende do que entendemos por desigualdade. Há 150 anos, a diferença entre ricos e pobres era monetariamente mais pequena do que hoje (não havia tantos Bill Gates). Mas, em termos de utilização real dessas unidades monetárias, a diferença era muito maior. Nessa altura, a diferença entre ter muito dinheiro e ter pouco dinheiro era a diferença entre ter saúde, riqueza, educação e status e estar na miséria, sem saúde, sem educação e ter uma probabilidade de morte prematura elevadíssima. A distância entre ricos e pobres era menor, mas fazia muita diferença; por vezes, a diferença entre a vida e a morte.

Hoje, a diferença monetária aumentou, mas a diferença real esbateu-se. Os ricos têm casas maiores, melhores carros, melhores telemóveis, fazem mais viagens e têm melhores médicos e dentistas; os pobres têm igualmente casas, carros e telemóveis, acesso à informação; fazem viagens ocasionais e até vão tendo médicos e dentistas: fazem o mesmo, só que em ponto pequeno. O capitalismo separou-os pelo número de euros, mas a força dessa diferença tornou-se cada vez menor. E a distância passou a ser medida em qualidade de fotografia do telemóvel, quando antes era medida em anos de vida. Esta é uma dádiva do capitalismo.

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