Tenho tido pouco tempo livre e por isso a resposta ao Marcos Sabino vem tarde. Recordo que, em comentário ao post Cartas a Manchester – Capítulo II, ele desafiou-me a explicar por que é que a teoria do Big Bang é mais credível do que a teoria da criação divina em seis dias.
Em primeiro lugar, quero dizer que acho incrível ter conseguido pôr o Marcos Sabino a debater filosofia, ciência e religião. É um verdadeiro milagre. Infelizmente, este é o único argumento a favor da existência de Deus que ele vai ler neste post.
Começo pelo início. O Marcos acha mais plausível uma criação divina do que uma criação espontânea de um momento para o outro. Compreendo a objecção, mas está a atacar um boneco de palha. A teoria do Big Bang não diz que o Universo foi criado assim, de um momento para o outro. Esta é a primeira crítica, que vou retomar a seguir. Por enquanto, começo pelo mais básico.
Parece difícil que uma coisa surja espontaneamente. Mas quem acha que é impossível um Universo surgir desta forma, tem de explicar por que é que é mais provável que um Deus seja capaz de o fazer. Mesmo que assumamos que Deus criou o Universo, surge sempre uma pergunta seguinte: e quem criou Deus?
A resposta normal dos crentes é simples: Deus não foi criado porque sempre existiu. Mas se acham que esta justificação é razoável, então uma justificação do tipo ‘o Universo sempre existiu’ é igualmente razoável. Não há motivo nenhum para recuarmos na cadeira de causalidade e decidirmos que um Universo precisa de causa mas um Deus não. Se procuramos causas para tudo, então vamos ser honestos e procurar causas para todos os fenómenos e não apenas para aqueles que nos convêm.
O comentário do Marcos tem mais um problema: traça uma dicotomia entre a explicação cristã e a explicação do Big Bang. Concordo que são explicações concorrentes, mas não são as duas únicas possibilidades. Consigo pensar em pelo menos mais três: a) o mundo foi criado a partir dos destroços de um Deus primordial; b) o mundo nasceu quando o amor surgiu no meio do caos; c) o mundo é o resultado do suicídio de um ser supremo que se sentia demasiado sozinho.
O primeiro exemplo diz respeito à mitologia nórdica, o segundo à mitologia grega e o segundo ao universo de banda desenhada da Marvel (e, possivelmente, têm todos os mesmo grau de verdade). O Marcos prefere a explicação cristã, mas há muitas outras possibilidades. Se tivesse nascido na Grécia há 2500 anos preferiria a segunda hipótese e se tivesse nascido na Escandinávia há 1500 anos iria pela primeira. E não há nenhuma razão particular para escolher uma em detrimento da outra. Ensinaram-lhe a versão cristã, mas se lhe tivessem impingido a versão escandinava, agora estaria a dizer que o mundo nasceu dos destroços do Deus Ymir e coisas afins.
Todas estas explicações fornecem modelos de trabalho. Mas se as tomamos como dogmas não vamos ficar a saber mais por causa disso. Temos de partir delas e descobrir se são confirmadas pelos dados experimentais. No caso cristão, a hipótese inicial foi deitada por terra quando descobrimos que a Terra tem mais anos do que os que a Igreja Católica admitia e quando encontrámos evidências da ligação filogenética entre animais.
E agora? Refutadas as hipóteses religiosas, surgiram outras como base de investigação. Actualmente, temos uma boa teoria que explica o início do Universo. É complicado saber se está certa, porque não havia ninguém vivo para verificar se houve Big Bang ou não. Mas esta teoria é congruente com alguns dos dados que temos. Encaixa bem nas outras teorias que temos e que são todos os dias confirmadas experimentalmente (quando ligamos a televisão, por exemplo).
Não basta, porque é preciso fazer mais testes. E mais testes. E mais testes. E, depois, ainda mais testes. A ciência está sempre aberta à correcção e revisão. Mas esse é o caminho a trilhar: usamos os melhores modelos que tivermos e quando verificarmos que não são bons atiramo-los borda fora. Se disserem ao Ratzinger que Deus não existe, ele manda-vos passear; se disserem ao Stephen Hawking que as suas teses estão erradas, ele manda-vos passear na mesma, mas vão ter o prazer de lhe esfregar na cara os vossos cálculos, caso sejam melhores que os dele.
É esta abertura ao erro e esta revisão constante que caracterizam a ciência. A ciência produz muito lixo, mas tem uma notável capacidade para ir substituindo o lixo que produz por produtos de qualidade cada vez mais refinada.
Um último ponto. Disse que se o Universo precisa de causa, então também Deus precisa. É verdade, mas explicar o Universo em termos científicos exige que sejamos capazes de lidar com esta questão complicada. O refúgio ‘ah, se os crentes não precisam então nós também não precisamos’ não serve, porque aquilo que se espera da ciência é exactamente que forneça boas explicações, e não explicações talhadas à medida das conveniências de cada um.
Vou tentar explicar a ideia, embora peça antecipadamente desculpa por qualquer deficiência técnica (não sou físico, e o pouco que sei é devido ao fantástico trabalho de divulgação da Gradiva). Segundo teoria do Big Bang, a explosão inicial não foi um evento no decorrer de um referencial estático (tempo): a explosão fundou o próprio referencial. O tempo foi criado no Big Bang, e antes deste evento não se pode falar de tempo porque esse conceito ainda não tinha surgido. É como o pólo norte: não faz sentido perguntar o que está a norte do pólo norte, porque é em ordem a esse ponto espacial que ordenamos o referencial.
Imagino que um crente vá dizer que é treta matemática. Compreendo, mas não lhe peço que aceite alguma coisa por fé (mais uma diferença em relação à religião). Se tiver dúvidas, pode mergulhar de cabeça nos livros e tentar refutar as teorias. Dá mais trabalho do que baixar as orelhas de cada vez que ouve o nome do Senhor (olha, outra diferença…), mas, se tiver sucesso, não só não lhe cortam a cabeça (os tempos das heresias já lá vão) como ainda lhe atribuem o Nobel da Física.
Hugo Torres disse,
Outubro 19, 2007 às 11:39 am
a razão é demolidora.
«Dá mais trabalho do que baixar as orelhas» « Sozinho a desenhar disse,
Outubro 19, 2007 às 12:35 pm
[...] por Hugo Torres no Outubro 19th, 2007 Quebro o silêncio apenas para encaminhar o leitores para esta – e esta – deliciosa exposição sobre Deus, Religião e Ciência, sob o punho sublime do [...]
Marcos Sabino disse,
Outubro 27, 2007 às 1:43 pm
Não era bem disto que estava à espera mas tudo bem! Deu para ver que afinal tu só pensas como pensas porque foi o que te ensinaram na escola no 6º ou 7º ano!
Vê as minhas razões na lógica do sabino!
pedroromano disse,
Outubro 27, 2007 às 1:49 pm
Marcos,
Favor re(ler) o último parágrafo…
Um pouco da minha lógica existencial « As minhas lógicas existenciais disse,
Outubro 27, 2007 às 1:55 pm
[...] o meu amigo Pedro Romano e como ele já deu o seu ponto de vista falta dar o meu. Um comentário ao post dele não seria suficiente para expor aquilo em que acredito. A questão básica é: Como surgiu o [...]
Marcos Sabino disse,
Outubro 27, 2007 às 2:01 pm
sim sim eu li mas foi quase como se n tivesse lido nada!
nao entendi bem esta parte: “a explosão fundou o próprio referencial. O tempo foi criado no Big Bang, e antes deste evento não se pode falar de tempo porque esse conceito ainda não tinha surgido.”
Eu tava a espera de uma explicação com mais de um parágrafo… mas obrigado por criares um texto so pra mim
PS: ja agora mudei para http://alogicadosabino.wordpress.com
Marcos Sabino disse,
Outubro 27, 2007 às 7:08 pm
Por acaso até era interessante se me pudesses emprestar alguma bibliografia que aches que pode rebater o que eu digo!
Leva um livro na proxima aula… vai à confiança pk qql k seja o dia k isso aconteça estarei lá
pedroromano disse,
Outubro 27, 2007 às 7:37 pm
Ok