Oh my God - resposta
Outubro 9, 2007 às 7:09 pm (Blogosfera, Deus & Religião, Filosofia & Ciência)
Meti-me numa discussão (no bom sentido) com o meu amigo Phillipe Vieira acerca de Deus. Discussões com o Phillipe já costumam ser longas quando falamos sobre impostos ou urbanismo (e isso este blogue atesta com frequência); para discutir Deus presumo que os argumentos se prolonguem até ao infinito. Que Deus nos acuda.
Mas adiante. Ele começa o seu post com uma declaração que me interessa.
Ora, acho que se alguma coisa existe devem haver provas que consubstanciem essa mesma existência. Não podemos cometer o erro, repetido ciclicamente ao longo da história do homem, de acreditar em algo sem quaisquer provas que o rectifiquem. Exactamente por isto, e pela Igreja Católica ter estado por detrás de alguns dos maiores engodos da nossa história, a existência de Deus é, cada vez mais, posta em causa.
Discutir Deus com base em evidências e argumentos é um repto que aceito com prazer. Mas com uma condição. Se é para ser racional, é para ser racional até ao fim.
Gosto mais da definição do filósofo Michel Henry, que apresenta uma visão fenomenológica de Deus: “Deus é Vida, ele é a essência da Vida, ou, se preferirmos, a essência da Vida é Deus. Dizendo isto já sabemos o que Deus é, e sabemo-lo não por via de um qualquer conhecimento adquirido, nem por pensamento no fundo do pano da verdade do Mundo; sabemo-lo e apenas podemos sabê-lo pela própria Vida. Apenas podemos sabê-lo em Deus.“
Este é o primeiro argumento. Como poesia, parece-me fantástico. Como argumento, tenho as minhas dúvidas. E por uma simples razão: não é um argumento, é uma definição.
Definições não são argumentos. E Michel Henry não argumenta a favor da existência da divina; propõe uma explicação da sua natureza. E isto não prova nada. Assim como eu não provo que o Abominável Homem das Neves existe dizendo que ele é a morte, ou que o Fernando Santos existe porque é a desgraça.
Além do mais, mesmo como definição Michael Henry não acerta. Deus é (ou é para a maioria dos crentes) uma entidade. Uma entidade tem de ser algo com existência no mundo. A palavra ‘Deus’ tem de ter um referente.
Mas ‘vida’ é uma abstracção. Não é uma entidade, é uma qualidade. Não posso apontar para algo e dizer: ‘ah, olha, esta é a Vida, diz-lhe olá’. As palavras ‘Deus’ e ‘vida’ designam coisas ontologicamente diferentes: a primeira designa um conceito e um referente; e a segunda designa apenas um conceito.
Claro que é possível misturar as duas coisas. Mas normalmente é mais em cânticos românticos do que em argumentos racionais. Einstein, por exemplo, nunca disse que o espaço/tempo era amor, saudades ou comichão. O que foi uma pena, porque lhe teria seguramente poupado alguns cálculos…
Logo, a nossa vida é uma consequência directa e continuada da Vida gerada por Deus, pois ele não cessa de nos dar vida. Significa isto que Deus criou-nos aquando da nossa concepção ou no princípio do Mundo, mas que ele nunca cessa de gerar Vida dentro de nós, e que ele está continuamente presente nas nossas acções e comportamentos do dia-a-dia.
Há aqui mais um problema. ‘Pois’ costuma utilizar-se como uma partícula de ligação entre as premissas e a conclusão. Mas aqui a premissa é igual à conclusão. A premissa é: «ele [Deus] não cessa de nos dar vida»; e a conclusão é: «a nossa vida é consequência directa e continuada da Vida gerada por Deus».
É como dizer: o Pai Natal não cessa de me dar presentes, logo os meus presentes são consequência directa e continuada da existência do Pai Natal. Está absolutamente certo, mas tem dois problemas. Primeiro, a conclusão é igual à premissa. Segundo, falta averiguar a validade das premissas (conclusões?): nada nos diz que a vida é causada por Deus (aliás, até há explicações bem mais simples conhecidas há mais de um século). O raciocínio é válido, mas para uma conclusão ser verdadeira ela tem também de se apoiar sobre premissas verdadeiras.
A melhor explicação para a existência de Deus não é dogmática, nem autoritária. É, pelo contrário, bastante racional e lógica: Se aceitarmos o facto de que a Vida existe, então reconhecemos que ela é o produto de desenho ou desígnio de uma entidade superior que traçou as regras e dirigiu os acontecimentos. Esse ‘arquitecto’ responsável pela criação e construção do Universo é Deus.
O argumento do Design Inteligente (ou do ‘arquitecto supremo’) é este: a vida é complexa; demasiado complexa para ter surgido de forma espontânea. Se virmos um relógio perdido numa praia, imediatamente pensaremos que alguém o produziu. Porquê? Porque é no mínimo improvável que todos os elementos que se juntam de forma perfeita para fazer o relógio se tenham auto-organizado sem alguém a ‘orientar’ a obra. E o mesmo se passa com a vida. Ao vermos vida, temos forçosamente de admitir que houve algum ‘arquitecto’ por detrás, alguém a projectar a maravilhosa complexidade que vemos em todos os homens (com a possível excepção dos dirigentes desportivos).
O Design Inteligente é um argumento apelativo, principalmente por recorrer a exemplos simples (como o do relógio) para transmitir ideias bastante aceitáveis pelo senso comum. Mas está errado. O Neodarwinismo explica (aliás bastante bem) como é que estruturas imensamente complexas podem surgir de processos espontâneos.
A partir daqui está refutado o Design Inteligente, que era o principal argumento a favor da existência divina. Como o ónus da prova recai sempre sobre quem tenta provar a existência de algo, pende agora sobre os ombros dos religiosos a responsabilidade trazerem mais argumentos para o debate. De momento, estão em desvantagem.
Nos comentários, o Phillipe diz ainda o seguinte.
Eu tenho fé que Deus existe, para além de acreditar nas provas científicas que o suportam. tu, tens fé que Deus não existe, baseado exactamente em outras tantas conclusões de igual legitimidade científica. a prova dos nove não vai ser tirada aqui.
Em primeiro lugar, não há, ao contrário do que ele afirma, «provas científicas que o suportam». Penso que o próprio Philllipe concordará comigo. O que não há é provas científicas que o refutem. É muito diferente. Mas é normal. É impossível refutar a existência de algo. Também não posso provar que não existe um cão com asas a voar no outro extremo do Universo, mas isso não torna essa existência mais plausível. É por isso que o ónus da prova recai sempre sobre quem tenta provar a existência de alguma coisa.
Em segundo lugar, eu não tenho fé. Fé é acreditar em algo sem evidências (e muitas vezes contra as evidências). A ausência de fé é a ausência de crença, não é outro tipo de fé. Não acredito em Deus; mas não não é por uma questão dogmática, como a frase subliminarmente indica – é por uma questão racional. Acreditar em Deus não é racional se não tiver indícios fortes dessa existência. Mas se um dia ele vier bater à minha porta, passarei a acreditar. É natural: actualizo as minhas opiniões à medida que a minha informação varia. Mas isto não é ter fé, é ser racional. Razão e fé são opostas.
Além do mais, esta forma de dizer que a existência de Deus é uma questão de fé destrói pelas bases o debate racional. ‘Ai e tal, eu acredito porque tenho fé, tu não acreditas porque não tens’. E pronto, acabou a discussão. Lamento, não vale. Se a fé é um critério válido na disputa intelectual, então vale tudo. Vale ter fé em gambozinos, no Pai Natal, no João Ratão e na inocência do Pinto da Costa. É tudo fé. É tudo igual.
Na verdade, o debate só poderá continuar quando deixar de haver fé e nos cingirmos aos argumentos racionais. Até lá, o debate não pode prosseguir porque um dos lados estará sempre barricado com o escudo da fé, tal como uma criança se barrica no ‘olha, eu acredito no Pai Natal e pronto’.
Aceito a atitude, mas registo a incorência de quem dizia no início que «não podemos cometer o erro, repetido ciclicamente ao longo da história do homem, de acreditar em algo sem quaisquer provas que o rectifiquem». Como disse, se é para ser racional, vamos ser racionais até ao fim.
P.S.- Bom, foram 24 parágrafos… Com tanto debate, devo ter ganho os hábitos do Phillipe. Se isso significa uma conversão, acho que ele ganhou a discussão.
phillipevieira disse,
Outubro 9, 2007 às 8:13 pm
tenho de responder a isto, não tenho? espera pelo fim da tertúlia Erasmus
Oh my God – a contra-resposta « O Eclipse disse,
Outubro 11, 2007 às 2:26 am
[...] 2007 Nota prévia: Este escrito surge na qualidade de resposta/comentário ao post presente aqui, da autoria do meu camarada Pedro Romano. Aliás, já esse artigo aparecia na qualidade de [...]
Cartas a Manchester - capítulo II « o número primo disse,
Outubro 12, 2007 às 12:04 am
[...] 12th, 2007 às 12:02 am (Deus & Religião, Filosofia & Ciência) O Phillipe escreveu, eu respondi, ele retorquiu e agora respondo eu de novo. Já adivinho que nenhum saia convencido, mas o post em [...]
Religião e Ciência « O filtro disse,
Outubro 18, 2007 às 12:08 am
[...] isso para os desatentos fica a lista de status: 06/10 | Oh my God, por Phillipe Vieira 09/10 | Oh my God - resposta, por Pedro Romano 11/10 | Oh my God - a contra-resposta, por Phillipe Vieira 12/10 | Cartas a [...]
A Palavra segundo as Escrituras « O Eclipse disse,
Outubro 22, 2007 às 11:35 am
[...] uma alegre discussão com o meu amigo Pedro Romano sobre Deus e se sobre tal figura existiria, ou não, e qual o seu papel, se algum, na história da civilização. Como a animada altercação chegou [...]