Vou voltar à carga. De qualquer modo, acho que a ideia do Phillipe já ficou bem entendida. Ele aceita a ciência como instrumento útil para o progresso do conhecimento mas não acha que ela tenha validade em certos domínios. Se percebi mal, peço-lhe que me corrija.
Acho que continua a pecar em alguns pontos. Mas desta vez vou evitar as citações para discutir directamente aquilo que penso serem os erros mais comuns na sua posição. Abstenho-me de citar (os leitores já devem estar fartos de ouvir os argumentos duas vezes) mas, por uma questão de clareza, vou continuar a abordar as questões por pontos.
1. A Física só trata daquilo que é… físico
O Phillipe tem uma forma um pouco materialista de olhar para a ciência. Dá a entender que a ciência só trata daquilo que é mensurável, palpável e directamente observável. E faz lembrar um pouco a velhinha física galilaica, com as pequenas esferas a rolarem sobre planos inclinados.
Mas a ciência não se cinge ao que é físico no sentido táctil do termo. A ciência cinge-se simplesmente àquilo que è real. Não precisa de ter forma física, só precisa de ter existência. Falamos de campos magnéticos, entropia, p-branas, e por aí fora – tudo coisas que desempenham um importante papel na física mas que não têm existência palpável.
A questão é que, se algo existe, então… existe. E se existe, tem de ter alguma forma de se manifestar. Não precisa de se manifestar de forma táctil. Pode ser uma alma, como pode ser um espírito – se existe, tem de se revelar ao mundo de alguma forma (nem que indirecta) e é essa forma que a ciência descobre. E não precisa de ser através de uma imagem: pode ser usando uma função matemática, por exemplo (como para descrever o estado de uma partícula).
Bom, o que é que tudo isto significa? Simples: que a ciência lida com qualquer fenómeno – basta ser um fenómeno. Se Deus existir, então tem de existir de alguma forma. Pode ser imaterial, pode ser na forma uma corrente electromagnética, pode ser como uma aura. Mas não se pode furtar à ciência, porque a ciência debruça-se exactamente sobre aquilo que existe.
2. A Bíblia tem de ser interpretada e foi feita por pessoas
O Phillipe diz que a Bíblia não é para ser levada à letra. E a respeito disso refere o exemplo de Adão como uma mensagem subliminar. Pois, mas uma interpretação alternativa – e agora recorrendo a um exemplo do Hugo Monteiro – é que essa passagem é um simples incentivo ao incesto. O problema é que há inúmeras interpretações possíveis. Se calhar, a mensagem não está a ser compreendida por ninguém. Se calhar, a mensagem nem é de paz e amor mas de guerra e morte. A assumir a tese da ‘Bíblia interpretável’, esse é uma hipótese em aberto.
O Phillipe também diz que a Bíblia tem imprecisões científicas. E explica que é natural, porque foi feita por pessoas. Mas isto levanta um problema epistemológico grave. É que é precisamente através da Bíblia que os cristãos conhecem Deus. É através da Bíblia que a sua palavra tem sido espalhada e é para ela que os teólogos se têm voltado na procura de respostas. Se a Bíblia foi feita por pessoas e não por Deus (e a explicação oficial é de que a Bíblia foi feita por pessoas sob inspiração divina), então a Bíblia pode ser toda uma patranha. Dizer ‘foram homens’ é uma faca de dois gumes.
De qualquer forma, esta teoria da relatividade da Bíblia é bem jovem. E é mais uma conquista da ciência do que uma concessão da religião. Até agora, a regra tem sido esta: a Igreja tem aceitado como relativo tudo aquilo que a ciência contesta com fontes seguras. É uma escapatória recente. Mas, admito, uma boa escapatória. Só tenho pena que uma ideia tão boa não tenha surgido no tempo da Santa Inquisição. Sempre se poupavam umas cabeças.
3. Religião e Ciência são campos que não se cruzam e Deus não pode ser refutado por ela
É curioso que o Phillipe faça esta distinção. De facto, vai contra tudo aquilo que os religiosos fazem. O que não falta são crentes a utilizar a ciência para ‘provar’ Deus. A Teoria do Design Inteligente, por exemplo, é uma teoria que supostamente se baseia em argumentos científicos (como o da complexidade) para defender a ideia de Deus. O Phillipe estabelece dois domínios bem separados, mas a verdade é que o primeiro domínio tem frequentemente recorrido ao segundo para se justificar.
E isto redunda na questão que fiz antes. Como é que um religioso responderia se lhe dissessem que a ciência tinha acabado de provar a existência de Deus? É difícil imaginá-lo a dizer que os dois campos estão separados e que, por isso, essa treta a ele não interessa nada. Provavelmente diria que os religiosos tinham ganho a discussão e que estava indubitavelmente provada a existência de Deus. Quem afirma que Deus e Ciência são campos diferentes deve primeiro ter a coragem de responder a esta questão de ‘como reagirias se…’. Só para tirar a prova dos nove.
4. A razão de Deus não é a razão da Ciência; Deus tem outra lógica
Vou meter aqui a questão do Pai Natal. O Phillipe acusa-me de estar a fazer humor irresponsável. Mas não estou. Porque os argumentos que ele usa para defender Deus são, de um ponto de vista neutro, semelhantes aos que uma criança usaria para defender o Pai Natal.
O Phillipe diz que Deus existe porque ele é Vida; uma criança diz que o Pai Natal existe porque dá presentes. O Phillipe diz que Deus não é da competência da Ciência; uma criança diz que se está a borrifar para a ciência desde que tenha os presentes no sapatinho. O Phillipe diz que Deus se sente lá no fundo; uma criança diz que acredita no Pai Natal lá no fundo.
Claro que, deste ponto de vista, o Pai Natal é impossível de refutar. Para mostrarmos a uma criança que o Pai Natal não existe teremos de lhe explicar que uma coisa não passa a existir só porque ela acredita nisso. As coisas existem independentemente de acreditarmos nelas. É por isso que o ónus da prova recai sempre sobre quem tenta provar algo, e não o contrário. Quem nega isto arrisca-se a apanhar com um Pai Natal em cima.
Mas o Phillipe diz que esta é a razão da ciência e que a razão de Deus é diferente. Como se fosse um domínio à parte. Infelizmente, fica por explicar porquê. Que é que o Phillipe responde se alguém lhe disser que acredita em Zeus e que a sua existência não se subordina à lógica porque é de uma esfera diferente? E se for a crença na Astrologia? E em Thor? E no Pai Natal?
Um crente dirá que essa questão não se põe e que a existência de Deus é simplesmente demasiado importante para ele para poder ser posta em causa. Pois, mas a criança dirá o mesmo em relação ao Pai Natal, a Maya dirá o mesmo em relação à Astrologia e um grego com 2500 anos dirá o mesmo em relação a Zeus, Apolo, Hércules e etc. O problema é que o não há nenhum critério que nos permita dizer ‘ok, isto é da competência da razão, e isto não’; esse critério seria até auto-destrutivo, porque teria de ser obtido através do uso da razão…
Talvez seja esta crise de legitimação que leva o Phillipe a dizer que «a existência de Deus tem de ser escrutinada pelas instâncias capazes». Não sei quais são, mas permito-me um palpite: as instâncias superiores serão aquelas que o confirmarem, certo? Igreja, crentes e afins.
Mas isto é a negação do conhecimento. Se um crente quer verdadeiramente saber se está certo, a primeira coisa que tem a fazer é admitir a possibilidade de estar errado. Se não admite esta hipótese à partida, então nem vale a pena avançar para o pensamento, porque já sabe antecipadamente a que porto vai chegar.
É isto que o pensamento teológico faz. Ao contrário do que o Phillipe diz, ele não «ultrapassa etapas antes de chegar a conclusões». O pensamento teológico faz o contrário: parte da conclusão e então encontra as premissas apropriadas. Não pôe sequer a possibilidade de estar errado: assume a certeza e então averigua de que forma essa certeza pode ser enquadrada nas outras certezas que temos. O pensamento teológico é exactamente a procura de razões para a existência de Deus. A partir daí, é martelar até encaixar…
Esta lógica é completamente diferente da de um ateísta. Diz-se frequentemente que o crente tem fé em Deus e que o ateísta tem fé na inexistência de Deus. Mas está incorrecto. Não acredito em Deus; mas não é por fé, é porque me faltam indícios da sua existência. Se aparecerem indícios fortes, passo a acreditar. Estou aberto às duas opções, e escolho a mais provável em função da informação que tenho.
No fundo, é uma questão de atitude. Um crente parte da sua fé e fecha-se nela porque não admite que esteja errada; eu parto da minha ignorância e pondero as hipóteses em disputa. É uma opção menos reconfortante, porque não me dá a verdade. Mas, ao mesmo tempo, é mais gratificante, porque me convida a encontrá-la.
P.S.- Ah, e o próximo post vai ser dedicado ao Marcos Sabino.