Ah, e tal, é que temos de interpretar…

A Bíblia tem elementos que são incompatíveis com os resultados da ciência. Nenhum geólogo aceita que a Terra tem apenas 10.000 anos, nenhum biólogo acredita que as espécies não se alteram ao longo do tempo e nenhum paleontólogo põe em causa a existência de dinossauros.

Claro que os dois campos se tocam nalguns pontos: historiadores confirmam que de facto a Judeia foi dominada pelos romanos e que os hebreus estiveram no Egipto. Mas essa é a verdade parcial que também encontramos nas revistas do homem-aranha: é pouco credível um jovem que dispara teias mas ninguém põe em causa a existência da cidade de Nova Iorque.

Os teólogos costumam dizer que a Obra de Deus não bate certo com a ciência porque uma parte não é para ser levada à letra e tem de ser interpretada. É uma forma de compatibilizar a Bíblia com a ciência. E é um bom método de salvaguarda, mas como conhecimento é zero: ficamos sem saber que partes são para ser interpretadas e quais partes são para ser levadas à letra.

Como o critério é volátil, a interpretação dá para tudo: para uma coisa e o seu contrário. Para a Bíblia poder ser refutável, teríamos de saber a priori quais são as partes literais e quais são as partes metafóricas ou aforísticas. Mas os teólogos não estão interessados em tornar a Bíblia refutável. Estão interessados em arranjar uma forma fácil de tornar a Bíblia imune a qualquer dado empírico. É o que se chama fugir com o rabo à seringa.

Claro que aqui tenho de abrir um parêntesis, para inaugurar o capítulo humorístico. Aqui vou citar o padre Anselmo Borges, que fui ver há uns dias à Biblioteca Craveiro da Silva (obrigado pela dica, ). Dizia o homem: «A biblia diz que os homossexuais têm de ser mortos… mas isso tem de ser lido de forma hermenêutica!». Assim, onde se lê ‘matem os homossexuais’, deve ler-se ‘aceitem os homossexuais e deixem-nos em paz’. Hermenêutica, ok, mas não gozem com a minha cara, está bem?

Mas, mesmo que aceitemos que a Bíblia é metade relato histórico e metade aforismo, ainda temos um problema. Historicamente, as más interpretações da Bíblia (e aqui ‘más’ significa ‘interpretações que não coincidem com aquela que os teólogos actuais acham correctas’) já originaram alguns homicídios, algumas centenas de guerras e, aqui e ali, um ou outro extermínio em massa.

Ora, se a palavra de Deus não era essa, a verdade é que ele também não se importou muito. Este Deus, ao fim e ao cabo, é uma maçada. Além de ser pouco claro – o que pode indiciar algum humor, mas certamente um humor bastante macabro, tendo em conta as consequências –, também é irresponsável. Quer que o adoremos, mas adorar não basta. Ainda temos de saber como o fazer. Até descobrirmos que tudo o que ele quer é amor e fraternidade, andamos a cortar cabeças, a exterminar populações e a torturar hereges. Erros de percurso. O que faltava era ler nas entrelinhas.

A minha avó também tinha fama de ser pouco clara. Uma vez cortou as unhas a uma das filhas e, perante uma pergunta bastante cretina desta última – ‘onde ponho as unhas?’ – deu uma resposta cretina: na sopa do pai. A criança, na sua ingenuidade, cumpriu o desejo da mãe. E esta, ao ver que tinha sido mal interpretada, procedeu ao devido correctivo: depois do tabefe, explicou que as unhas são para pôr no lixo. A minha avó podia não ter o sentido de humor de Deus, mas era bastante mais prática.

P.S.- O debate do padre Anselmo Borges prolongou-se durante a noite de sexta-feira até à meia noite de sábado. Partindo do princípio de que os mandamentos ainda são para cumprir, penso que o sacerdote entrou em pecado. Agora lá vai ter de recorrer à hermenêutica para mostrar que onde se lê ‘não trabalharás ao sábado’, o que Deus queria mesmo dizer era ‘não trabalharás às segundas-feiras chuvosas, às terças-feiras tórridas ou às quintas-feiras de nevoeiro’ (riscar o que não interessa).

Meter o bedelho

Vai por aqui uma boa discussão acerca do mercado e do Ensino. Uma caixa de comentários de um jornal online não é o melhor sítio para meter o bedelho; mas um blogue pessoal já é outra coisa. E há pelo menos três ou quatro tiradas que achei interessantes. Começo com uns comentários do José Pedro Monteiro (que, a propósito, é dos tipos que mais gosto de ver a comentar).

(…) se há casos de apostas falhadas que o mercado não pode absorver aqui estava a referir-me em apostas em áreas cientificas que não são, na sua fase embrionária, prioridades do mercado (…) uma das críticas mais ferozes ao endeusamento do mercado, especialmente da parte de autores da área da economia do desenvolvimento, prende-se com a sua incapacidade intrinseca de distinguir investimento supérfluo de investimento em sectores que podem vir a ser rentáveis (…)

O mercado não é um indivíduo: é o conjunto dos indivíduos que interagem numa economia. E estes indivíduos não são perfeitos. Falham previsões, erram nos investimentos, dão tiros nos pés. Mas são todos os indivíduos, e não apenas os indivíduos das grandes companhias. Os indivíduos do Governo também falham.

Na verdade, até falham bem mais. E é uma questão de incentivos. Se o aeroporto da Ota for realmente necessário, o Mário Lino não ganha nada em promovê-lo. Mas se for desnecessário, também não perde nada em encomendá-lo: o dinheiro não lhe sai do bolso. No caso de uma empresa, esta tem todos os incentivos e mais alguns para fazer uma análise mais ponderada: se estiver correcta ganha uma pipa de massa, se estiver errada vai à falência.

E, se quisermos olhar para o longo prazo, o cenário ainda é pior. Um político vive num ciclo político de quatro a oito anos. Se, ao fim de oito anos, o desgaste não o tirar do poleiro, o ciclo económico encarrega-se disso. Caso as coisas corram para o torto, o mais provável é recorrer ao investimento público – com poucos custos no curto prazo mas enormes no longo prazo – para se aguentar mais algum tempo. Quando a factura vier, já não está lá. Quem vier a seguir que limpe a porcaria.

Para concluir, uma empresa não abdica de lucros no longo prazo. O lucro é igual: se vier amanhã sabe bem, mas se vier para o ano sabe bem na mesma. Uma empresa não deixa de fazer investimentos no longo prazo, mas essa é uma conclusão fácil de chegar quando se compara o investimento público com o privado. Só que a razão é outra: os investimentos são mais reduzidos porque as análises de risco são mais criteriosas. E com isso poupa-se alguns elefantes brancos – como o estádio do Algarve, por exemplo.

A Universidade existe para dar formação superior, a nível intelectual, artístico, cientifico e técnico, às pessoas. O saber, em si, é um objectivo, e não um meio para arranjar emprego (…)

Esta é do Filipe Alves. Bom, acho que o saber em si é um objectivo interessante; mas não vamos pôr o contribuinte a pagar o prazer intelectual alheio. O investimento público no Ensino Superior justifica-se por duas razões: a igualdade de oportunidades (na medida do possível, e sem abdicar da qualidade) e o retorno tangível para a sociedade. Um engenheiro, um médico e um cientista são úteis à sociedade, mas o ‘saber em si’, como prazer puro, só é útil ao indivíduo. E isso o Estado não tem de financiar.

Claro que no que diz respeito a uma Universidade privada, a crítica já não faz sentido. O dinheiro é dela, faz dele o que quiser. Usa-o para promover cientistas inteligentes, cientistas atrasados mentais ou até cientistas patetas. Isso é lá com ela.

(…) os professores, reitores, funcionários, etc, são nossos “empregados”. O ensino superior público é financiado com os impostos de toda a população as propinas (que, na verdade, são uma pequena parte das receitas da universidade)

Esta vem do Hugo Monteiro. E discordo. O dinheiro que mantém a Universidade não é dos alunos, é do contribuinte – e é por isso que a sua utilização tem de ser escrutinada por alguém que o represente. Se os alunos fossem accionistas da Universidade, tudo bem – mas não são: são beneficiários de um subsídio estatal. A Universidade é para os alunos, mas não é dos alunos.

P.S. – Mas claro que um Reitor eleito por um Conselho Geral também não é garantia de nada. O melhor solução seria, como diz o Filipe Alves, conceder o apoio directamente ao estudante, ao invés de o dar à Instituição. Mas isso fica para outro dia.

Já são cinco e meia da manhã, não dá para mais que isto

Tinha uma série de posts no prelo mas o tempo não tem sido muito. Amanhã vou tentar arranjar meia hora para meter a colher nesta discussão e para responder ao Phillipe Vieira. Se houver tempo, quero ainda mandar uns bitaites acerca da natureza e plausibilidade dos milagres, da questão do agnosticistmo/ateísmo e, pelo meio, meter a navalha de Occam e a memética ao barulho. Vai ser uma orgia.

Uga, uga

Relataram-me uma vez – tinha eu oito ou nove anos – uma cena de pancadaria entre miúdos na escola que frequentava. Foi violento e o agressor era, ao que soube, reincidente; já tinha cadastro e era daquile tipo de criança que as outras crianças gostam de evitar nos intervalos.

Resultado? Os pais da vítima queriam que o pequeno Átila abandonasse a escola; os pais dos outros miúdos queriam que o Conselho Directivo tomasse medidas para impedir mais brincadeiras violentas; quanto aos pais do próprio catraio, acho que não chegaram a manifestar-se, mas penso que não erro por muito se disser que estavam a marimbar-se.

O debate nos grandes círculos de decisão da escola (nessa altura via tudo a uma grande distância) passaram-me, confesso, um pouco ao lado. Quando soube da luta, não perguntei porquê, nem como; nem me interessei pelo dia seguinte, pelas causas do acto ou pelas suas consequências. As minhas preocupações eram mais mundanas: «Mas quem deu mais e quem levou, afinal?», perguntei a um amigo.

Não tenho bem a certeza, mas acho que é uma coisa deste género que se passa pela caixa de comentários desta notícia. Reacções destas aos oito anos são normais. São reacções de criança. Mas aos vinte e tal, não. São reacções de pateta.

Um estranho conceito de jornalismo

O jornalismo militante, de Diana Andringa.

Ciências

Uma pausa curta na série de posts dedicada ao Senhor lá de cima para falar das coisas cá de baixo. A passagem é do Rabbit’s Blog.

Segundo um estudo recente, nos EUA, cerca de 17% dos académicos nas ciências sociais descrevem-se a si mesmos como Marxistas, um valor que sobe para 25% na área da sociologia.

Nas humanidades é 5%, nas ciências naturais ou de saúde é 0%.

Hoje parece-nos incrível como as ciências sociais dominavam o discurso público há uma geração, antes de se tornarem socialmente irrelevantes e intelectualmente desprezadas (eu já ouvi sociólogo usado como insulto). Os números acima mostram, em parte, porquê.

E, já agora, uma menção para o comentário do Tiago Mendes: if you are a good economist, a virtuous economist… you are reborn as a physicist. But if you are an evil, wicked economist, you are reborn as a sociologist.

Os limites da ciência (e do bom senso)

Argumento preferido do crente: a ciência tem limites. E, se tem limites, não a podemos usar para investigar todos os domínios nem obter todas as respostas. Esta é a parte pacífica; a parte polémica vem a seguir: Deus faz parte desse clube elitista das conclusões não verificáveis pela ciência. Ou seja, Deus está para lá dos instrumentos e técnicas da ciência.

Vamos lá ver as coisas como deve ser. A ciência tem limites? Tem. Grande coisa: um campo de futebol também tem. Mas se os quiser conhecer não me atiro para o chão vendado a tentar adivinhar: abro os olhos e vejo. É mais prático. E menos enganador.

Com a ciência é a mesma coisa. Há limites para aquilo que podemos saber através dela, mas não vamos encontrar esses limites postulando domínios invioláveis escolhidos arbitrariamente. Para sabermos os limites da visão, usamos os olhos e vemos até onde conseguimos ver; para conheceremos os limites da ciência, fazemos ciência até onde for possível.

Assim de repente lembro-me de pelo menos dois exemplos. Na Economia, segundo a Teoria da Perfeita Eficiência dos Mercados, a própria teoria económica é inútil para fazer previsões na evolução do mercado bolsista; ou seja, a Economia é inútil para nos dizer como ganhar dinheiro em bolsa – é uma limitação da própria ciência.

Já no campo da Matemática, o Primeiro Teorema de Godel diz-nos que um sistema axiomático não pode ser completo e consistente ao mesmo tempo. Isto quer dizer que há proposições indecidíveis dentro desse sistema – proposições que não podemos afirmar serem verdadeiras ou falsas. Mais uma limitação.

Duas ciências, dois limites. Mas notem a subtileza: esses limites foram encontrados através do trabalho das próprias ciências (Economia e Matemática, nestes casos). Não foram atirados para o ar, nem foram escolhidos ao calhas. A ciência tem limites? Tem. Mas não vamos deixar que seja o senhor padre a ditá-los…

Politicamente incorrecto

Vale a pena ler o que o Desidério Murcho escreve. Mesmo quando não é (estritamente) sobre filosofia.

Em conclusão, Watson pode estar a ser vítima do “politicamente correcto”. Hoje é proibido pensar que as pessoas podem ser diferentes umas das outras em capacidades cognitivas, sendo tais diferenças correlativas às suas origens genéticas. Tal como é proibido dizer que o aquecimento global não é provocado pelos seres humanos. A proibição em si é grave, pois mostra até que ponto estamos em pleno pesadelo orwelliano. Mas o que me impressiona mais é o lodaçal conceptual que rodeia esta conversa toda. São confusões atrás de confusões. Ora, o obscurantismo começa sempre, historicamente, com a tentativa desesperada de ocultar verdades incómodas, e quase sempre com base em confusões infantis deste género. Afinal de contas, talvez o pensamento claro e disciplinado da filosofia sirva mesmo para alguma coisa?

E as categorias proliferam… Agora é o Politicamente Correcto. Não há volta a dar.

Tiros ao lado

Tenho tido pouco tempo livre e por isso a resposta ao Marcos Sabino vem tarde. Recordo que, em comentário ao post Cartas a Manchester – Capítulo II, ele desafiou-me a explicar por que é que a teoria do Big Bang é mais credível do que a teoria da criação divina em seis dias.

Em primeiro lugar, quero dizer que acho incrível ter conseguido pôr o Marcos Sabino a debater filosofia, ciência e religião. É um verdadeiro milagre. Infelizmente, este é o único argumento a favor da existência de Deus que ele vai ler neste post.

Começo pelo início. O Marcos acha mais plausível uma criação divina do que uma criação espontânea de um momento para o outro. Compreendo a objecção, mas está a atacar um boneco de palha. A teoria do Big Bang não diz que o Universo foi criado assim, de um momento para o outro. Esta é a primeira crítica, que vou retomar a seguir. Por enquanto, começo pelo mais básico.

Parece difícil que uma coisa surja espontaneamente. Mas quem acha que é impossível um Universo surgir desta forma, tem de explicar por que é que é mais provável que um Deus seja capaz de o fazer. Mesmo que assumamos que Deus criou o Universo, surge sempre uma pergunta seguinte: e quem criou Deus?

A resposta normal dos crentes é simples: Deus não foi criado porque sempre existiu. Mas se acham que esta justificação é razoável, então uma justificação do tipo ‘o Universo sempre existiu’ é igualmente razoável. Não há motivo nenhum para recuarmos na cadeira de causalidade e decidirmos que um Universo precisa de causa mas um Deus não. Se procuramos causas para tudo, então vamos ser honestos e procurar causas para todos os fenómenos e não apenas para aqueles que nos convêm.

O comentário do Marcos tem mais um problema: traça uma dicotomia entre a explicação cristã e a explicação do Big Bang. Concordo que são explicações concorrentes, mas não são as duas únicas possibilidades. Consigo pensar em pelo menos mais três: a) o mundo foi criado a partir dos destroços de um Deus primordial; b) o mundo nasceu quando o amor surgiu no meio do caos; c) o mundo é o resultado do suicídio de um ser supremo que se sentia demasiado sozinho.

O primeiro exemplo diz respeito à mitologia nórdica, o segundo à mitologia grega e o segundo ao universo de banda desenhada da Marvel (e, possivelmente, têm todos os mesmo grau de verdade). O Marcos prefere a explicação cristã, mas há muitas outras possibilidades. Se tivesse nascido na Grécia há 2500 anos preferiria a segunda hipótese e se tivesse nascido na Escandinávia há 1500 anos iria pela primeira. E não há nenhuma razão particular para escolher uma em detrimento da outra. Ensinaram-lhe a versão cristã, mas se lhe tivessem impingido a versão escandinava, agora estaria a dizer que o mundo nasceu dos destroços do Deus Ymir e coisas afins.

Todas estas explicações fornecem modelos de trabalho. Mas se as tomamos como dogmas não vamos ficar a saber mais por causa disso. Temos de partir delas e descobrir se são confirmadas pelos dados experimentais. No caso cristão, a hipótese inicial foi deitada por terra quando descobrimos que a Terra tem mais anos do que os que a Igreja Católica admitia e quando encontrámos evidências da ligação filogenética entre animais.

E agora? Refutadas as hipóteses religiosas, surgiram outras como base de investigação. Actualmente, temos uma boa teoria que explica o início do Universo. É complicado saber se está certa, porque não havia ninguém vivo para verificar se houve Big Bang ou não. Mas esta teoria é congruente com alguns dos dados que temos. Encaixa bem nas outras teorias que temos e que são todos os dias confirmadas experimentalmente (quando ligamos a televisão, por exemplo).

Não basta, porque é preciso fazer mais testes. E mais testes. E mais testes. E, depois, ainda mais testes. A ciência está sempre aberta à correcção e revisão. Mas esse é o caminho a trilhar: usamos os melhores modelos que tivermos e quando verificarmos que não são bons atiramo-los borda fora. Se disserem ao Ratzinger que Deus não existe, ele manda-vos passear; se disserem ao Stephen Hawking que as suas teses estão erradas, ele manda-vos passear na mesma, mas vão ter o prazer de lhe esfregar na cara os vossos cálculos, caso sejam melhores que os dele.

É esta abertura ao erro e esta revisão constante que caracterizam a ciência. A ciência produz muito lixo, mas tem uma notável capacidade para ir substituindo o lixo que produz por produtos de qualidade cada vez mais refinada.

Um último ponto. Disse que se o Universo precisa de causa, então também Deus precisa. É verdade, mas explicar o Universo em termos científicos exige que sejamos capazes de lidar com esta questão complicada. O refúgio ‘ah, se os crentes não precisam então nós também não precisamos’ não serve, porque aquilo que se espera da ciência é exactamente que forneça boas explicações, e não explicações talhadas à medida das conveniências de cada um.

Vou tentar explicar a ideia, embora peça antecipadamente desculpa por qualquer deficiência técnica (não sou físico, e o pouco que sei é devido ao fantástico trabalho de divulgação da Gradiva). Segundo teoria do Big Bang, a explosão inicial não foi um evento no decorrer de um referencial estático (tempo): a explosão fundou o próprio referencial. O tempo foi criado no Big Bang, e antes deste evento não se pode falar de tempo porque esse conceito ainda não tinha surgido. É como o pólo norte: não faz sentido perguntar o que está a norte do pólo norte, porque é em ordem a esse ponto espacial que ordenamos o referencial.

Imagino que um crente vá dizer que é treta matemática. Compreendo, mas não lhe peço que aceite alguma coisa por fé (mais uma diferença em relação à religião). Se tiver dúvidas, pode mergulhar de cabeça nos livros e tentar refutar as teorias. Dá mais trabalho do que baixar as orelhas de cada vez que ouve o nome do Senhor (olha, outra diferença…), mas, se tiver sucesso, não só não lhe cortam a cabeça (os tempos das heresias já lá vão) como ainda lhe atribuem o Nobel da Física.

Cartas a Manchester III – deixa lá essa sueca sossegada e lê isto que deu trabalho

Vou voltar à carga. De qualquer modo, acho que a ideia do Phillipe já ficou bem entendida. Ele aceita a ciência como instrumento útil para o progresso do conhecimento mas não acha que ela tenha validade em certos domínios. Se percebi mal, peço-lhe que me corrija.

Acho que continua a pecar em alguns pontos. Mas desta vez vou evitar as citações para discutir directamente aquilo que penso serem os erros mais comuns na sua posição. Abstenho-me de citar (os leitores já devem estar fartos de ouvir os argumentos duas vezes) mas, por uma questão de clareza, vou continuar a abordar as questões por pontos.

1. A Física só trata daquilo que é… físico

O Phillipe tem uma forma um pouco materialista de olhar para a ciência. Dá a entender que a ciência só trata daquilo que é mensurável, palpável e directamente observável. E faz lembrar um pouco a velhinha física galilaica, com as pequenas esferas a rolarem sobre planos inclinados.

Mas a ciência não se cinge ao que é físico no sentido táctil do termo. A ciência cinge-se simplesmente àquilo que è real. Não precisa de ter forma física, só precisa de ter existência. Falamos de campos magnéticos, entropia, p-branas, e por aí fora – tudo coisas que desempenham um importante papel na física mas que não têm existência palpável.

A questão é que, se algo existe, então… existe. E se existe, tem de ter alguma forma de se manifestar. Não precisa de se manifestar de forma táctil. Pode ser uma alma, como pode ser um espírito – se existe, tem de se revelar ao mundo de alguma forma (nem que indirecta) e é essa forma que a ciência descobre. E não precisa de ser através de uma imagem: pode ser usando uma função matemática, por exemplo (como para descrever o estado de uma partícula).

Bom, o que é que tudo isto significa? Simples: que a ciência lida com qualquer fenómeno – basta ser um fenómeno. Se Deus existir, então tem de existir de alguma forma. Pode ser imaterial, pode ser na forma uma corrente electromagnética, pode ser como uma aura. Mas não se pode furtar à ciência, porque a ciência debruça-se exactamente sobre aquilo que existe.

2. A Bíblia tem de ser interpretada e foi feita por pessoas

O Phillipe diz que a Bíblia não é para ser levada à letra. E a respeito disso refere o exemplo de Adão como uma mensagem subliminar. Pois, mas uma interpretação alternativa – e agora recorrendo a um exemplo do Hugo Monteiro – é que essa passagem é um simples incentivo ao incesto. O problema é que há inúmeras interpretações possíveis. Se calhar, a mensagem não está a ser compreendida por ninguém. Se calhar, a mensagem nem é de paz e amor mas de guerra e morte. A assumir a tese da ‘Bíblia interpretável’, esse é uma hipótese em aberto.

O Phillipe também diz que a Bíblia tem imprecisões científicas. E explica que é natural, porque foi feita por pessoas. Mas isto levanta um problema epistemológico grave. É que é precisamente através da Bíblia que os cristãos conhecem Deus. É através da Bíblia que a sua palavra tem sido espalhada e é para ela que os teólogos se têm voltado na procura de respostas. Se a Bíblia foi feita por pessoas e não por Deus (e a explicação oficial é de que a Bíblia foi feita por pessoas sob inspiração divina), então a Bíblia pode ser toda uma patranha. Dizer ‘foram homens’ é uma faca de dois gumes.

De qualquer forma, esta teoria da relatividade da Bíblia é bem jovem. E é mais uma conquista da ciência do que uma concessão da religião. Até agora, a regra tem sido esta: a Igreja tem aceitado como relativo tudo aquilo que a ciência contesta com fontes seguras. É uma escapatória recente. Mas, admito, uma boa escapatória. Só tenho pena que uma ideia tão boa não tenha surgido no tempo da Santa Inquisição. Sempre se poupavam umas cabeças.

3. Religião e Ciência são campos que não se cruzam e Deus não pode ser refutado por ela

É curioso que o Phillipe faça esta distinção. De facto, vai contra tudo aquilo que os religiosos fazem. O que não falta são crentes a utilizar a ciência para ‘provar’ Deus. A Teoria do Design Inteligente, por exemplo, é uma teoria que supostamente se baseia em argumentos científicos (como o da complexidade) para defender a ideia de Deus. O Phillipe estabelece dois domínios bem separados, mas a verdade é que o primeiro domínio tem frequentemente recorrido ao segundo para se justificar.

E isto redunda na questão que fiz antes. Como é que um religioso responderia se lhe dissessem que a ciência tinha acabado de provar a existência de Deus? É difícil imaginá-lo a dizer que os dois campos estão separados e que, por isso, essa treta a ele não interessa nada. Provavelmente diria que os religiosos tinham ganho a discussão e que estava indubitavelmente provada a existência de Deus. Quem afirma que Deus e Ciência são campos diferentes deve primeiro ter a coragem de responder a esta questão de ‘como reagirias se…’. Só para tirar a prova dos nove.

4. A razão de Deus não é a razão da Ciência; Deus tem outra lógica

Vou meter aqui a questão do Pai Natal. O Phillipe acusa-me de estar a fazer humor irresponsável. Mas não estou. Porque os argumentos que ele usa para defender Deus são, de um ponto de vista neutro, semelhantes aos que uma criança usaria para defender o Pai Natal.

O Phillipe diz que Deus existe porque ele é Vida; uma criança diz que o Pai Natal existe porque dá presentes. O Phillipe diz que Deus não é da competência da Ciência; uma criança diz que se está a borrifar para a ciência desde que tenha os presentes no sapatinho. O Phillipe diz que Deus se sente lá no fundo; uma criança diz que acredita no Pai Natal lá no fundo.

Claro que, deste ponto de vista, o Pai Natal é impossível de refutar. Para mostrarmos a uma criança que o Pai Natal não existe teremos de lhe explicar que uma coisa não passa a existir só porque ela acredita nisso. As coisas existem independentemente de acreditarmos nelas. É por isso que o ónus da prova recai sempre sobre quem tenta provar algo, e não o contrário. Quem nega isto arrisca-se a apanhar com um Pai Natal em cima.

Mas o Phillipe diz que esta é a razão da ciência e que a razão de Deus é diferente. Como se fosse um domínio à parte. Infelizmente, fica por explicar porquê. Que é que o Phillipe responde se alguém lhe disser que acredita em Zeus e que a sua existência não se subordina à lógica porque é de uma esfera diferente? E se for a crença na Astrologia? E em Thor? E no Pai Natal?

Um crente dirá que essa questão não se põe e que a existência de Deus é simplesmente demasiado importante para ele para poder ser posta em causa. Pois, mas a criança dirá o mesmo em relação ao Pai Natal, a Maya dirá o mesmo em relação à Astrologia e um grego com 2500 anos dirá o mesmo em relação a Zeus, Apolo, Hércules e etc. O problema é que o não há nenhum critério que nos permita dizer ‘ok, isto é da competência da razão, e isto não’; esse critério seria até auto-destrutivo, porque teria de ser obtido através do uso da razão…

Talvez seja esta crise de legitimação que leva o Phillipe a dizer que «a existência de Deus tem de ser escrutinada pelas instâncias capazes». Não sei quais são, mas permito-me um palpite: as instâncias superiores serão aquelas que o confirmarem, certo? Igreja, crentes e afins.

Mas isto é a negação do conhecimento. Se um crente quer verdadeiramente saber se está certo, a primeira coisa que tem a fazer é admitir a possibilidade de estar errado. Se não admite esta hipótese à partida, então nem vale a pena avançar para o pensamento, porque já sabe antecipadamente a que porto vai chegar.

É isto que o pensamento teológico faz. Ao contrário do que o Phillipe diz, ele não «ultrapassa etapas antes de chegar a conclusões». O pensamento teológico faz o contrário: parte da conclusão e então encontra as premissas apropriadas. Não pôe sequer a possibilidade de estar errado: assume a certeza e então averigua de que forma essa certeza pode ser enquadrada nas outras certezas que temos. O pensamento teológico é exactamente a procura de razões para a existência de Deus. A partir daí, é martelar até encaixar…

Esta lógica é completamente diferente da de um ateísta. Diz-se frequentemente que o crente tem fé em Deus e que o ateísta tem fé na inexistência de Deus. Mas está incorrecto. Não acredito em Deus; mas não é por fé, é porque me faltam indícios da sua existência. Se aparecerem indícios fortes, passo a acreditar. Estou aberto às duas opções, e escolho a mais provável em função da informação que tenho.

No fundo, é uma questão de atitude. Um crente parte da sua fé e fecha-se nela porque não admite que esteja errada; eu parto da minha ignorância e pondero as hipóteses em disputa. É uma opção menos reconfortante, porque não me dá a verdade. Mas, ao mesmo tempo, é mais gratificante, porque me convida a encontrá-la.

P.S.- Ah, e o próximo post vai ser dedicado ao Marcos Sabino.

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