Reducionismo VI

O Reducionismo é também uma forma de evitar charlatanices. É um crivo útil para avaliarmos as teorias científicas. Aliás, não só útil como extremamente comum. Tão comum que por vezes tenho a ideia de que todos os cientistas sérios se guiam por ele, ainda que não tenham consciência disso. Isto faz de todos os cientistas uns reducionistas maçudos? Não sei, mas pelo menos aparentam pensar como se fossem.

Recordando: o princípio reducionista diz que a as teorias científicas são redutíveis a teorias mais abrangentes e, ao mesmo tempo, englobam teorias mais específicas. A Teoria da Gravitação de Newton engloba a teoria da queda dos graves de Galileu e a teoria das órbitas de Kepler (ou seja, explicava os mesmos fenómenos recorrendo a um único conjunto de recursos matemáticos) e, ao mesmo tempo, é explicada pela Relatividade Geral de Einstein (que, a propósito, também explica uma data de coisas que a versão newtoniana não explicava). Newton recorreu a conceitos mais básicos do que os de Kepler ou Galileu, assim como Einstein recorreu a conceitos mais básicos do que os Newton.

Suponhamos que alguém encontra a cura para o cancro: uma combinação judiciosa de exercício físico e exposição a uma determinada radiação. Se o sucesso da prescrição for atestado por uma correlação suficientemente alta, é legítimo presumir que a cura para o cancro está encontrada.

Ainda assim, parece que algo falha. O cancro está normalmente relacionado com anomalias no material genético. Sabemos que certas radiações podem provocar alterações genéticas, o que torna a relação de causalidade plausível. Mas o exercício físico não afecta os genes; parece difícil assumir que há uma relação entre o exercício e a cura do cancro. Provavelmente, a solução está toda na radiação – o exercício físico é uma variável desprezável.

Estamos a pensar em termos reducionistas quando desconfiamos da influência da variável ‘exercício físico’. Precisamente porque não parece haver uma linha de causalidade que parta dela, passe pela alteração do material genético e acabe na cura para o cancro. Enquanto a investigação não mostrar que há uma relação entre uma variável ‘marco’ – o exercício físico – e uma variável ‘micro’ – o material celular – estaremos apropriadamente desconfiados em relação à validade da tese. Simplesmente porque não parece apropriado invocar o princípio holista de que há leis não redutíveis – como se o exercício físico curasse o cancro apenas ‘porque sim’, sem necessitar de se fundar numa cadeia de causalidade a um nível inferior.

Podemos usar outro exemplo (até podíamos usar mais, mas o meu tempo é limitado, tal como a paciência do leitor – e já é heróico chegar a este ponto do post sem ter mudado de blogue). Há duas ‘ciências’ que estabelecem uma relação entre os acontecimentos celestes e os acontecimentos terrestres: a Física e… a Astrologia. A Física prevê uma data de fenómenos em que movimentações de corpos longínquos afectam a Terra: o efeito de marés, provocado pela Lua, é um exemplo disso. A Astrologia também: se fulano ou sicrano nasceu nesta ou naquela data, vai ter sorte desde o dia tal ao dia tal, ou vai nascer com uma grande propensão para ser feliz, para ter bigode, para ganhar dinheiro ou para ser um cretino.

A Física legitima-se pelo Reducionismo: como a Lua pertence a uma certa classe de objectos – os que são afectados pela gravidade –, e como tem uma certa massa, e como está a uma certa distãncia da Terra, e por aí adiante, é natural que certos efeitos se façam sentir. A Astrologia simplesmente diz que ‘sim’. Por que é que a posição dos planetas do Sistema Solar influencia a minha personalidade? A melhor resposta é: porque sim. E por que é que a minha sorte deveria depender da posição da Lua nessa manhã? Pois, também fica por explicar. A todos estes porquês, a única resposta da Astrologia é dizer que as suas leis são irredutíveis; que elas existem ‘porque sim’, e que não derivam de leis mais básicas ou fundamentais. Um reducionista (e presumo que qualquer pessoa com alguns miolos) topa logo: é intrujice.

P.S.– E com isto termina a série Reducionismo; espero que os visitantes entretanto perdidos voltem.

Para lá das aparências

A areia está a corroer a Muralha da China. Explicação sonsa: a agricultura intensiva modificou o ecossistema da região, favorecendo o aparecimento de tempestades de areia.

Explicação avisada: a culpa é do Bush.

Diz-me com quem andas…

As FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colómbia – voltaram a ser convidadas para a Festa do Avante! Eu gostava de comentar em tom irónico, mas acho que não dá para fazer ironia com coisas (tão) sérias.

Reducionismo V

Nas antípodas do Reducionismo está o Holismo, que assume que a compreensão de certos fenómenos não pode ser feita em função do entendimento de cada um dos seus elementos. Compartimentar o objecto acaba por desvirtuá-lo, porque certos fenómenos desaparecem quando os tentamos apreender olhando para simples reunião dos seus elementos. No fundo, é a ideia de que o todo é superior à soma das partes.

É difícil encontrar holistas puros em ramos ‘duros’ como a química orgânica ou a genética molecular. Mas eles são relativamente vulgares nas ciências humanas, como a Sociologia. Penso que esta predilecção tem pelo menos duas razões. Primeiro, os sociólogos são tradicionalmente pouco atreitos à matematização – o que, presumo, tolda um pouco qualquer perspectiva reducionista. E, segundo, o holismo é uma óptima forma de ‘barricar’ a área de estudo, que fica devidamente apartada das outras ciências. Confere algum estatuto à disciplina e dá para irritar aqueles chatos das ciências exactas que têm a mania de que eles é que estudam as verdadeiras questões profundas. Claro que ao dizer isto também estou a fazer Sociologia.

Um dos exemplos contra o Reducionismo vem mesmo da Sociologia: a reacção de uma multidão a uma situação de calamidade, como o incêndio num teatro. O comportamento deste agregado caracteriza-se por ser aparentemente irracional: gritos histéricos e corridas desnorteadas, quando a atitude racional seria precisamente a inversa – pouco barulho para facilitar a comunicação e saída ordeira (ainda que apressada) para minimizar os choques e congestionamentos. Por que é que a atitude individual é tipicamente racional mas o somatório das atitudes individuais é aparentemente irracional? A resposta holista é que a Sociedade constitui um todo que não pode ser compreendido em função das suas partes. Se tentarmos procurar as respostas para o comportamento de uma multidão simplesmente entrevistando as pessoas que a compõem estaremos a perder de vista o fenómeno, porque este, uma vez atomizado, desaparece.

Parece-se um pouco com misticismo? Pois, se calhar é porque é mesmo. Desde logo porque é difícil imaginar por que raio é que há unidades que se podem compreender em função das partes e há unidades que não se prestam a esse tipo de análise. As fronteiras estabelecidas pelos holistas parecem tudo menos racionalmente fundamentadas. Normalmente, são critérios completamente arbitrários: as sociedades são irredutíveis, o comportamento humano é irredutível, a linguagem humana é irredutível, etc. Porquê? Porque sim.

É evidente que analisar uma multidão em função das partes é um processo complexo. Mas complexo é diferente de impossível. Os holismos de alguns sociólogos são, muitas vezes, simples confissões de ignorância – ou, no limite (o que é pior) tentativas de impermeabilizar essa mesma ignorância. Como não consigo explicar isto, digo que isto é assim porque é, e é ilógico procurar ‘razões’ para o fenómeno: ele é a lei mais básica que podemos encontrar neste domínio.

Resposta reducionista: as razões estão lá todas; basta procurar. No caso concreto, a resposta estará provavelmente na psicologia das pessoas (e basta algumas noções fundamentais de teoria dos jogos para percebermos que um comportamento aparentemente irracional pode ser bastante racional se tomado num contexto de grupo). Dizer que as multidões não podem ser compreendidas em termos mais simples, olhando para os elementos que as compõem, é simplesmente dizer algo que acontece apenas porque sim. É a lógica a-científica de crendices como a astrologia, que não explica as suas ‘leis’; contenta-se em enunciá-las e a dizer que elas são válidas, sem necessidade de as fundar em fenómenos mais básicos (o que na prática equivale simplesmente a… explicá-los), num raciocínio reducionista. É por isso que o Reducionismo fornece também uma base teórica para detectarmos intrujices. Mas isso fica para outro post.

Reducionismo IV

Uma das consequências do Reducionismo é que a ciência não é facilmente compartimentável. Não há ciências exactas, ciências ‘assim-assim’ ou ciências humanas – há apenas ciências mais ou menos complexas, consoante os níveis de análise que decidam adoptar.

Mais uma vez, é a ideia de ‘caixas dentro de caixas’. As caixas mais pequenas, inseridas nas maiores, dizem respeito às ciências com um objecto de estudo mais complexo – como a Psicologia, que estuda os processos mentais do ser humano. Depois aparecem, eventualmente, ciências como a Biologia (que se debruça sobre a complexidade dos sistemas biológicos). E vamos por aí fora, passando pela Bioquímica, pela Química e terminando na Física.

O que difere aqui não é a natureza do objecto, mas sim a sua complexidade. Em princípio, o comportamento humano é tão previsível quanto qualquer outro fenómeno físico, como a queda de um grave ou os processos bioquímicos no interior de uma célula. Prever o comportamento humano só é mais complicado do que prever fenómenos mais básicos por uma razão simples: sistemas avançados – como a mente humana – põe em jogo um número de variáveis muito maior do aquele que encontramos nas outras ciências; não tem nada que ver com uma hipotética diferença fundamental entre o ser humano (ou, de forma mais geral, o mundo biológico) e o restante mundo físico. Aliás, muitas ciências normalmente consideradas ‘exactas’ não têm lá muito sucesso a prever os fenómenos que supostamente analisam – a meteorologia e a geologia são bons exemplos disso.

Quais são os limites de cada ciência? Em princípio, os limites das respectivas linguagens. Pensemos num macroeconomista a investigar uma questão relacionada com um agregado macroeconómico – a inflação, por exemplo. O máximo a que um economista pode aspirar é obter uma explicação da evolução da inflação em termos dos próprios conceitos-base da sua área: a economia (caso usasse outros conceitos deixava de ser economista e passava a ser outra coisa qualquer). Se conseguir uma explicação mesmo muito boa, talvez seja possível explicar o fenómeno macroeconómico em termos de processos microeconómicos. Mas a partir daí a investigação tem de partir para outras mãos, para um investigador capaz de pegar nos conceitos microeconómicos e interpretá-los em função de conceitos mais simples ainda. O trabalho passa de mãos em mãos. Neste ponto, talvez o passo seguinte seja passá-lo a alguém da área da neuroeconomia. Decompostos os fenómenos e conceitos em fenómenos e conceitos ainda mais simples, o próximo receptor talvez seja o neurologista. E, depois, o bioquímico. O processo continua sempre até ao ‘fundo’ – até à explicação final para a qual convergem todas as outras.

Reducionismo III

A oposição a um Reducionismo completo surge normalmente quando o Reducionismo se estende ao domínio humano. Admitir que o Reducionsimo é válido significa admitir que o ser humano se rege pelas mesmas leis que governam coisas tão diversas como os planetas, as cebolas e o ADN, e que ele é, na sua génese, constituído pelos mesmos elementos que estão na base de algo tão prosaico como um calhau (quanto a isto, não há muito a fazer: somos basicamente carbono).

Descartes deu uma preciosa ajuda. Segundo ele, o mundo físico está completamente separado do mundo mental – o célebre Dualismo Cartesiano. Como o nosso mundo interior faz parte de um mundo mental, podemos desligar, muito convenientemente, a essência humana do materialismo proposto pelo Reducionismo. A partir do momento em que alma e corpo estão separados, a alma não pode ser reduzida às mesmas leis e elementos do corpo: somos corpo, regido por leis físicas, e mente, regida por outras leis. Isto abre portas a possibilidades várias, tais como a nossa alma sobreviver à morte física do corpo (e não é por acaso que a separação corpo-alma é tão defendida por alguns religiosos).

O Dualismo Cartesiano já foi devidamente atacado por neurologistas (como o António Damásio, por exemplo). Mas nem é preciso recorrer à ciência para atacar as conclusões de Descartes; um bom contra-argumento vem do próprio campo de filosofia – mais concretamente, da suposição de ‘robots’.

Um ‘robot’ é alguém fisicamente indistinto de um humano mas sem aquilo que chamaríamos de ‘mente’ ou ‘autoconsciência’ (a ‘alma’ de Descartes). Exteriormente é igual a nós, e mesmo interiormente não há grandes diferenças: os órgãos estão no sítio, o cérebro também, e por aí fora. A única diferença encontra-se exactamente nessa ausência de sensibilidade que caracteriza um humano. Se a mão do ‘robot’ estiver sobre o fogo, ele retira-a tal como um humano, mas internamente não há qualquer sensação. O retirar da mão é uma resposta cerebral a um estímulo externo, da mesma forma que um computador dá respostas (coordenadas pelo processador) a estímulos do utilizador do terminal; lá dentro, não há propriamente uma dor real, aquilo que chamamos de sensação de dor. Há um corpo físico que reage, mas não há uma mente para sentir e pensar.

Agora podemos voltar ao mundo exterior. Um ‘robot’ é igual a nós e comporta-se como nós. Como é fisicamente idêntico, não podemos distingui-lo de um humano verdadeiro. E, como reage a estímulos da mesma forma que nós próprios reagimos, não podemos saber se se trata de um ‘robot’ ou de um humano verdadeiro. Uma vez que não temos acesso à sua condição interior, mas apenas ao seu aspecto e comportamento exterior, não podemos dizer se é um ‘robot’ ou um genuíno humano. Tanto quanto sei, posso ser o único ser consciente na Terra, dado que não há forma de averiguar a consciência de qualquer outra pessoa. Ah, e a generalização ‘ Eu sou humano e consciente, logo é possível que todos os outros também sejam humanos e conscientes’, também não é válida. Generalizar com base num único caso – o meu caso – não tem muita lógica.

A única forma de eu – ser consciente e ciente desta autoconsciência, logo, humano – presumir, com alguma segurança lógica, que as pessoas com quem me relaciono são humanas – seres conscientes – e não ‘robots’, é abandonar o Dualismo Cartesiano e partir do princípio de que a autoconsciência é uma característica mental que emerge de certas estruturas físicas, como o cérebro. Se não houver oposição entre mente e corpo, mas sim uma complementaridade, com a primeira a emergir do segundo, então é legítima a suposição de que as outras pessoas são humanas porque partilham comigo as estruturas físicas que me concedem o dom da autoconsciência. Esta posição só é sustentável enquanto mantivermos activas duas permissas: a) as mesmas causas levam às mesmas consequências; b) o nosso corpo físico é causa da nossa existência mental. O Dualismo Cartesiano rejeita a segunda premissa; o Reducionismo, não.

Isto não significa que o Dualismo Cartesiano esteja errado; significa que aceitá-lo implica aceitar a consequência lógica de que, num mundo de oposição Corpo/Mente, é bastante possível que o sujeito detentor de consciência que faz a avaliação seja o único humano (ou seja, o único ser consciente) existente, e que todos os outros são ‘robots’. Se estivermos dispostos a fazer esta concessão, o Cartesianismo é tão lógico quanto o Reducionismo – a diferença é que é muito menos razoável.

P.S.- Já agora, e por uma questão de honestidade: o argumento do ‘robot’ é igual ao argumento do ‘morto-vivo’ de Simon Blackburn, explicado na obra Pense (já agora: é um livro que vale a pena).

Demorou mas veio

O Governo vai apoiar os empréstimos a alunos universitários. É um sistema que já está em vigor há algum tempo nos EUA (e mesmo na Europa, embora não seja norma corrente) e que serve de financiamento indirecto; o aluno contrai um empréstimo a juros baixos que só tem de ser liquidado depois da entrada na vida activa, servindo o Estado de fiador.

Nada contra. É uma forma mais responsabilizante de subsidiar o Ensino Superior. E, no que toca ao apoio a alunos carenciados, parece-me que o método tem algumas vantagens em relação ao sistema de bolsas de estudo. Pelo menos duas.

Primeiro, é um incentivo ao estudo. O empréstimo tem de ser pago e a única forma de o fazer é trabalhar. Quanto maiores forem as capacidades adquiridas, maior é a possibilidade de se liquidar rapidamente a dívida, evitando o amontoar de juros, o que só promove o bom aproveitamento das aulas. (Isto significa também que quanto mais se estudar menor será o impacto do empréstimo no rendimento disponível). O facto de a instituição bancária acompanhar os resultados académicos do estudante é um incentivo adicional: melhores notas garantem juros mais baixos e, no limite, caso as expectativas não sejam promissoras, o empréstimo pode simplesmente deixar de ser concedido (isto também depende do enquadramento legal da iniciativa).

Segundo, é um incentivo à qualidade do Ensino. Um incentivo indirecto, sustentado na mesma base do primeiro ponto; com o financiamento a ter de ser feito com recurso aos rendimentos próprios (rendimentos futuros, via empréstimo), é previsível que os estudantes se tornem muito mais exigentes com o Ensino Superior. A OCDE apresentou, há algum tempo, um estudo a recomendar o aumento das propinas como forma de incentivar a qualidade; pois bem, um esquema deste género permite atingir objectivos similares de forma mais subtil e com menos contestação social.

Estas vantagens em relação ao sistema de bolsas de estudo acontecem porque o financiamento não é feito a fundo perdido. A atribuição de uma bolsa está dependente da condição financeira e não dos resultados obtidos: o Estado remete o cheque e deixa ao aluno a administração dos fundos públicos que recebeu. Mas num empréstimo o aluno está a empenhar o seu próprio dinheiro, e a própria possibilidade de o fazer está dependente de conseguir ou não conseguir convencer as instituições de crédito de que tem capacidade e vontade para cobrir a dívida. O risco é dividido entre Estado e aluno, enquanto que no sistema de bolsas de estudo é o Estado que põe as mãos no fogo.

P.S.- Como as instituiçõs privadas são tradicionalmente mais fiáveis do que o sector público, um empréstimo bancário pode ser também a forma mais rápida de acabar com os atrasos do Estado no pagamento das bolsas. O dinheiro passa a ser mais certo, porque é privado, e o seu uso torna-se mais responsável, porque é do aluno. São só vantagens.

Filosofia da boa

E assim, de rajada, mais dois posts direitinhos para o arquivo dos recomendados. Para que serve a Filosofia e A Filosofia não gera dinheiro?, ambos de Desidério Murcho, do De Rerum Natura, um blogue que vale mesmo a pena ler. As citações são retiradas dos dois posts.

Quando me fazem a pergunta que dá título a este post [Para que serve a Filosofia] tenho a tentação de me limitar a recomendar a leitura de uma boa introdução à filosofia, como Pense, de Simon Blackburn, Que Quer Dizer Tudo Isto?, de Thomas Nagel, ou Elementos de Filosofia Moral, de James Rachels. Se depois de ler cuidadosamente qualquer um destes livros a pergunta persistir, parece desavisado tentar responder-lhe.

(…)

Algumas pessoas têm a sensação que a filosofia nada tem a ver com coisas práticas do mundo. Isto é falso. Nem todas as disciplinas da filosofia são tão teóricas como a teoria do conhecimento ou a metafísica ou a filosofia da linguagem. As áreas mais aplicadas da filosofia, como a ética, a filosofia da arte ou a filosofia política, têm relações óbvias e importantes com o mundo social, político e artístico. Livros como Ética Prática ou Um Só Mundo, de Peter Singer, assim como Sobre a Liberdade, de John Stuart Mill, ou Uma Teoria da Justiça, de John Rawls, mostram bem a importância prática de algumas áreas da filosofia.

(…)

Quem conhece a actividade editorial inglesa, no domínio da filosofia, não pode afirmar que a filosofia não gera dinheiro. Gera, e muito. Claro, não gera tanto dinheiro quanto a música comercial ou o futebol. Também a venda de guardanapos de papel não gera tanto dinheiro quanto o futebol. Mas gera dinheiro suficiente para se publicar centenas de livros todos os anos, alguns muitíssimo caros, que se não fossem comprados e se não dessem lucro aos editores, deixariam de ser publicados.

Contudo, é verdade que em Portugal, como no Brasil, há uma incapacidade gritante da parte dos académicos de filosofia para gerar riqueza, nomeadamente através de livros. Penso que isto resulta em grande parte de duas coisas. Em primeiro lugar, da cultura aristocrática que herdámos, segundo a qual a filosofia é uma coisa para gente rica, que não vai “sujar as mãos” a ganhar dinheiro com coisa tão nobre. Em segundo lugar, a publicação para o umbigo, para fazer currículo académico, descurando as necessidades dos estudantes e do grande público. O efeito terrível disto é a ideia que tem o nosso leitor: que a filosofia não gera riqueza.

Mas isto é falso. A filosofia gera riqueza exactamente como outras actividades culturais geram riqueza: quando é bem feita, atrai compradores, ou seja, estudantes dispostos a pagar licenciaturas, mestrados e doutoramentos, e leitores que compram milhares de livros de filosofia todos os anos.

Reducionismo II

A ideia de convergência explicativa, que é a base do Reducionismo, abre portas à ideia de uma teoria definitiva a partir da qual todas as outras possam ser directamente deduzidas. Esta noção deriva logicamente da assunção de que não há campos científicos mas apenas camadas científicas, com teorias mais básicas e fundamentais do que outras; no fundo, na camada mais básica de todas, encontraríamos uma única lei. Teríamos uma espécie de Super-Teoria da Física, a partir da qual poderíamos extrair todas as outras: a explicação da Gravidade, do Magnetismo, etc. (Stephen Hawking chama-lhe, muito apropriadamente, a Teoria do Tudo).

Isto não representa o fim da ciência. Uma teoria fundamental pode ser verdadeira – pelo menos no sentido positivista do termo, em que há correspondência perfeita entre a observação e a teoria – e contudo ser absolutamente inutilizável para fins práticos. A compreensão de um processo complexo não pode ser estudada – pelo menos com os meios limitados que temos – numa base atomista; por vezes é necessário salientar aspectos-chave de um fenómeno, pô-los em evidência, e estudá-los com recurso a uma linguagem específica, com um nível de detalhe adequado à questão em estudo. O corpo humano, por exemplo é uma estrutura biológica, mas a medicina dificilmente poderia progredir se o tentasse estudar como um agregado de compostos químicos.

E agora um monte de posts recomendados

Ainda acerca da questão do ataque à propriedade de Silves (que tem estado praticamente a monopolizar a blogosfera, apesar de curiosamente continuar alheada dos nossos telejornais), alguns posts a ler. No Rabbit’s Blog, Obscurantismos, Ainda Miguel Portas, Desobediência Civil e Partir aquela merda toda.

Usando a expressão do rapaz, “partir aquela merda toda” foi certamente bom (partir coisas é fixe).

Agora, pagar a conta, um acto que daria força à afirmação do “nada nos move contra o agricultor”, isso é que já não fazemos. Ia-nos custar do bolso. Somos anti-capitalistas, mas não somos parvos. Tinha de ir pedir mais dinheiro ao meu pai e o cota ia ficar fodido.

Acção directa! Voluntarismo! Excepto, claro, voluntariamente pagar a conta do que se estragou. Isso é má onda. Não é uma cena fixe, como partir aquela merda toda. Que paguem os outros!

No blogue da Revista Atlântico, Eco-Banditismo e A via verde do paternalismo, por Tiago Mendes.

Se o milho trangénico é utilizado em X e em Y, que isso fique bem claro nos seus rótulos. Informem-se as pessoas. Que depois compram X e Y se quiserem. Tal como o farão os membros do MEV. Imagine-se o que era se estes jovens libertadores se lembrassem de destruir plantações de tabaco ou fábricas de cerveja com a bela ideia de ajudar o cidadão “desinformado” e “ignorante” a cuidar melhor do seu pulmão ou da sua barriga. Fiquem mas é quietinhos.

No Insurgente, O Bloco de Esquerda e os crimes da eco-escumalha e A mensagem da eco-escumalha para o mundo (recomendadíssimo, até porque a mensagem é mesmo profunda), por André Azevedo Alves, e Assumir Responsabilidades, por BZ.

Paralelamente, a seguir a cobertura que Paulo Gorjão (na série O caminho mais rápido para descredibilizar uma causa – que já vai na parte XX) e Pacheco Pereira têm feito do desenvolvimento do caso.

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