O Reducionismo é também uma forma de evitar charlatanices. É um crivo útil para avaliarmos as teorias científicas. Aliás, não só útil como extremamente comum. Tão comum que por vezes tenho a ideia de que todos os cientistas sérios se guiam por ele, ainda que não tenham consciência disso. Isto faz de todos os cientistas uns reducionistas maçudos? Não sei, mas pelo menos aparentam pensar como se fossem.
Recordando: o princípio reducionista diz que a as teorias científicas são redutíveis a teorias mais abrangentes e, ao mesmo tempo, englobam teorias mais específicas. A Teoria da Gravitação de Newton engloba a teoria da queda dos graves de Galileu e a teoria das órbitas de Kepler (ou seja, explicava os mesmos fenómenos recorrendo a um único conjunto de recursos matemáticos) e, ao mesmo tempo, é explicada pela Relatividade Geral de Einstein (que, a propósito, também explica uma data de coisas que a versão newtoniana não explicava). Newton recorreu a conceitos mais básicos do que os de Kepler ou Galileu, assim como Einstein recorreu a conceitos mais básicos do que os Newton.
Suponhamos que alguém encontra a cura para o cancro: uma combinação judiciosa de exercício físico e exposição a uma determinada radiação. Se o sucesso da prescrição for atestado por uma correlação suficientemente alta, é legítimo presumir que a cura para o cancro está encontrada.
Ainda assim, parece que algo falha. O cancro está normalmente relacionado com anomalias no material genético. Sabemos que certas radiações podem provocar alterações genéticas, o que torna a relação de causalidade plausível. Mas o exercício físico não afecta os genes; parece difícil assumir que há uma relação entre o exercício e a cura do cancro. Provavelmente, a solução está toda na radiação – o exercício físico é uma variável desprezável.
Estamos a pensar em termos reducionistas quando desconfiamos da influência da variável ‘exercício físico’. Precisamente porque não parece haver uma linha de causalidade que parta dela, passe pela alteração do material genético e acabe na cura para o cancro. Enquanto a investigação não mostrar que há uma relação entre uma variável ‘marco’ – o exercício físico – e uma variável ‘micro’ – o material celular – estaremos apropriadamente desconfiados em relação à validade da tese. Simplesmente porque não parece apropriado invocar o princípio holista de que há leis não redutíveis – como se o exercício físico curasse o cancro apenas ‘porque sim’, sem necessitar de se fundar numa cadeia de causalidade a um nível inferior.
Podemos usar outro exemplo (até podíamos usar mais, mas o meu tempo é limitado, tal como a paciência do leitor – e já é heróico chegar a este ponto do post sem ter mudado de blogue). Há duas ‘ciências’ que estabelecem uma relação entre os acontecimentos celestes e os acontecimentos terrestres: a Física e… a Astrologia. A Física prevê uma data de fenómenos em que movimentações de corpos longínquos afectam a Terra: o efeito de marés, provocado pela Lua, é um exemplo disso. A Astrologia também: se fulano ou sicrano nasceu nesta ou naquela data, vai ter sorte desde o dia tal ao dia tal, ou vai nascer com uma grande propensão para ser feliz, para ter bigode, para ganhar dinheiro ou para ser um cretino.
A Física legitima-se pelo Reducionismo: como a Lua pertence a uma certa classe de objectos – os que são afectados pela gravidade –, e como tem uma certa massa, e como está a uma certa distãncia da Terra, e por aí adiante, é natural que certos efeitos se façam sentir. A Astrologia simplesmente diz que ‘sim’. Por que é que a posição dos planetas do Sistema Solar influencia a minha personalidade? A melhor resposta é: porque sim. E por que é que a minha sorte deveria depender da posição da Lua nessa manhã? Pois, também fica por explicar. A todos estes porquês, a única resposta da Astrologia é dizer que as suas leis são irredutíveis; que elas existem ‘porque sim’, e que não derivam de leis mais básicas ou fundamentais. Um reducionista (e presumo que qualquer pessoa com alguns miolos) topa logo: é intrujice.
P.S.– E com isto termina a série Reducionismo; espero que os visitantes entretanto perdidos voltem.