Liberdade

Aviso prévio: o post é grande. Já estou a ganhar os vícios deste gajo. Mas adiante.

O autoritarismo, em qualquer das suas formas, nasce da descrença na sensatez e na capacidade de aprendizagem humanas. Apesar de não achar necessariamente que o homem seja imbecil, o autoritário acredita que o homem médio necessita de ser guiado, pelo menos em certos domínios cuja comprensão exige um conhecimento superior. Perante a evidente complexidade do mundo, o autoritário desconfia do senso comum do homem médio e propõe que algumas escolhas sejam feitas por instituições credíveis, constituídas por técnicos treinados.

A justificação salazarista da ditadura assentava neste pressuposto. A democracia era um sistema avançado, tão avançado que só funcionava em sociedades desenvolvidas. Em povos atrasados e embrutecidos como o português, a liberdade seria apenas a via mais rápida para a auto-destruição. A solução era um caudilho, obviamente mais sensato e iluminado do que o povo que era suposto dirigir (e do qual, paradoxalmente, também ele provinha).

Estes tiques foram sublimados. Hoje, não temos um Salazar a dizer-nos que é melhor do que qualquer um de nós a tomar qualquer decisão. Mas temos um Ministério do Ensino Superior a dizer-nos quais são as Universidades que podem ou não ensinar, um Ministério da Cultura a revelar-nos quais os espectáculos que vale a pena ver e, mais recentemente, um ministro dos Assuntos Parlamentares a querer dizer-nos o que é e não ‘jornalismo de sarjeta’.

Este sistema de autoridade centralizado escrutina as opções de todos. A única opinião que não está submetida a escrutinínio é a do escrutinador supremo – o poder político. Que é, curiosamente, a que mais importa escrutinar, porque é aquela cuja incorrecção mais desastres causa. Se o Mariano Gago ‘pai’ escolher uma má escola, só o seu filho é que sofre; mas se o Mariano Gago ‘ministro’ escolher um modelo de educação errado, todos os filhos se lixam – os dele e os dos outros. O erro do decisor central é pior do que o erro do decisor particular porque se propaga por toda a cadeia que está na sua dependência.

Posto isto, é evidente que ninguém tem conhecimentos técnicos acerca de tudo. Mas assumir a ignorância acerca de um tema é diferente de assumir a incapacidade de fazer escolhas racionais em relação a esse tema. Eu não sei muito de automóveis, mas consigo escolher um bom mecânico para fazer a revisão ao carro – por que é que um pai não poderia recolher aconselhamento de forma semelhante no que toca à educação do filho? As formas de aferir acerca da qualidade de uma Universidade são, aliás, diversas. Um pai pode aconselhar-se com um especialista, pode ir por tentativa e erro, pode observar e imitar (seleccionando as Universidades conforme o sucesso que alcançam os alunos por ela formados), etc.

Num sistema deste género, os técnicos que o Estado habitualmente encarrega de nos guiar poderiam também dar a sua opinião. Mariano Gago teria a liberdade para dar conselhos aos pais tornando-se consultor (com a vantagem de que ainda ganhava uma pipa de massa) e Augusto Santos Silva poderia criar uma revista de media na qual dissertaria sobre o que é a boa e a má imprensa. O público seria livre de seguir estes conselhos; a única diferença é que tanto Santos Silva como Mariano Gago teriam de convencer os potenciais clientes de que eram eles os melhores técnicos, e não outros quaisquer. As opiniões não escrutinadas e impostas estatalmente seriam subitamente forçadas a defender-se com argumentos racionais, procurando convencer o público de que, no mercado de opiniões, são elas as mais válidas.

Pode-se argumentar que as imposições estatais apenas restringem a liberdade de escolha para garantir limites mínimos de qualidade. Questões de bom senso, com as quais todos concordam, como, por exemplo, proibir-se a existência de Universidades privadas que ensinem que 1+1=2. Mas a questão está mal formulada. Se a questão em disputa tem uma resposta consensualmente aceite, então a decisão política é redundante: uma escola que ensine que 1+1=2 irá rapidamente à falência. Mas se a questão não é tão consensual como isso (e a respeito disto lembro, por exemplo, a forma como ainda se ensina o 25 de Abril nos manuais de História do Ensino Básico), estamos, pelo menos, perante um indício de que a verdade oficial pode não estar tão certa quanto isso, até porque já não reflecte esse consenso de que se afirma tributária. O paradoxo do autoritarismo central é que ele é redundante quando está correcto, e destruidor quando está incorrecto.

Há ainda um princípio do autoritarismo especialmente perverso. O autoritarismo, ao retirar a liberdade aos indivíduos, delegando-a (mais a correspondente responsabilidade) no decisor político, contribui para tornar os indivíduos mais apáticos, mais inertes e menos criativos. Uma sociedade castrada de iniciativa, perdida de responsabilidades e bovinamente guiada é uma sociedade que, a prazo, tende a deixar de arriscar, de inovar e de criar. Uma sociedade morta e da qual o caudilho autoritário poderá, então, dizer que necessita de ser guiada.

O autoritarismo é, assim, um mecanismo circular irrefutável. O autoritarismo cria a bovindade; mas a explicação oficial é que é a existência desta bovindade que justifica o autoritarismo. Isto permite justificar o crescimento do autoritarismo: o autoritarismo cria bovindade, o caudilho interpreta a bovindade como necessidade de autoritarismo e a receita é sempre mais autoritarismo. O autoritarismo é uma ser que se alimenta a si próprio com um sucesso espantoso.

Esse mercado perverso

Maravilha número um: o Harry Potter conseguiu pôr as criancinhas lusas a ler. Fez mais pela letras (e pela criançada, já agora) do que qualquer Plano Nacional de Leitura.

Maravilha número dois: o Harry Potter conseguiu pôr as criancinhas lusas a ler em inglês. Fez mais pelo ensino da língua do que a grande maioria das escolas públicas.

Ah, e tudo isto sem subsídios.

Coisas simples

Já não recomendava um post do Henrique Raposo desde os tempos do blogspot. Pois bem, aqui vai ele. Há coisas que têm de ser ditas.

Vejo no jornal: “há 247 razões que levam as pessoas a ter sexo – diz estudo científico”. Lamento, caros cientistas, mas só há uma razão que leva ao sexo: tesão. E é coisa que não carece de ciência para ser descoberta. Caros cientistas, procurem o fundo do mar, tentem descobrir a cura para o cancro ou SIDA, e deixem a malta em paz.

O post, que é reproduzido integralmente, inaugura uma nova categoria: sexo. O itálico, naturalmente, é meu.

Pergunta da semana

Por que é que os alunos, particularmente os do Ensino Superior, copiam?

Copiar é uma estratégia para obter boas notas quando não se possui as competências necessárias para as alcançar de forma legítima. Quem copia tem qualificações aceitáveis sem perder horas com estudo, pesquisa e trabalho. O copianço é, por isso, uma evidência de pouco estudo e/ou de poucas capacidades.

Copiar dá boas notas, portanto. Mas não dá competências. Ganha-se um título, mas não o valor real a que esse título habitualmente está ligado. O acto de copiar, neste sentido, não está necessariamente relacionado com o desprezo pelas competências; mas o acto de recorrer sistematicamente ao copianço, como estratégia antecipadamente elaborada, indica, sem dúvida, que quem a ele recorre importa-se mais com o título em si do que com as competências que dele normalmente se inferem.

A isto há que acrescentar o facto de o Ensino Superior custar dinheiro. Quem vai para o Ensino Superior para copiar está basicamente a dizer que não se importa de gastar dinheiro – bastante dinheiro, aliás – para ganhar o direito a ostentar um título (o de licenciado). O dinheiro, na óptica do aluno – e pelos aparentemente – vale este título, mesmo que não esteja acompanhado de habilitações.

O que não deixa de ser curioso. Um título que não reflecte habilitações, qualidades ou capacidades tende, naturalmente, a desvalorizar. A partir do momento em que o aluno não estuda para ganhar habilitações, o seu título vale zero. Quem emprega um imbecil com canudo? Talvez enganem à primeira, mas os contratos não são eternos. Contudo, e pelo menos da óptica do aluno, este título vale o dinheiro que se pagou por ele.

Portanto, e voltando à pergunta: por que é que os alunos copiam? Uma possível resposta segue dentro de momentos. A caixa de comentários, entretanto, está aberta.

Paradoxos

Aqueles que criticaram os EUA por invadirem o Iraque com base nos seus interesses egoístas vão agora aplaudi-los por sairem da zona com base nos mesmíssimos interesses egoístas.

Boa vontade não chega

Colectivamente, todos temos a ganhar com a redução das emissões de carbono. Individualmente, todos temos a perder com a redução unilateral das nossas próprias emissões de carbono. Poluir é a estratégia dominante no jogo ambiental.

Corolário: a solução para o ambiente passa por um acordo global; um acordo parcial não só não impedirá o ataque ao ambiente como prejudicará economicamente os países que reduzirem unilateralmente as suas emissões com base na boa vontade.

Sugestão do dia

Molho de soja no arroz. Fica óptimo. E tem a vantagem de também servir a vegetarianos. Pelo que soube, é muito comum na Noruega.

Ambientalismo de cadeirão

A actividade económica tem custos e tem benefícios. Os benefícios contam-se pelos ganhos dos compradores e dos produtores. Os custos contam-se pelos gastos dos produtores e pelas externalidades devido ao próprio processo produtivo.

A poluição é um tipo de externalidade. É um custo, mas um custo repartido pela sociedade. Quando a General Motors produz e, no processo, emite gases nocivos para o ambiente, está a poluir não apenas as suas instalações, mas também o ambiente em geral. Como esta poluição não tem um grande impacte sobre a própria General Motors – o que significam alguns gases num planeta tão vasto? – o custo real da poluição para a empresa é, na prática, desprezável.

O raciocínio individual da GM ocorre em todas as empresas. Nenhuma empresa tem incentivos para controlar as suas emissões, já que os benefícios da produção excedem em muito os prejuízos, que são, no caso da poluição, repartidos. Mas como todas pensam o mesmo, resultado final é o de que o ambiente é irremediavelmente atacado. É uma tragédia dos comuns.

Os problemas ambientais são um subproduto desta tragédia dos comuns. São problemas globais que exigem soluções globais. Não adianta um Protocolo de Quioto se apenas alguns países o assinarem: os outros continuariam a poluir – tirando ainda partido do abrandamento económico dos países signatários (o que poderia até levar a um crescimento rápido das emissões). Quioto, para ser eficaz, teria de reunir as assinaturas de todos os países poluidores.

E uma solução destas não é fácil, mesmo em países desenvolvidos. Uma vez assinado um compromisso destes, todos teriam um incentivo para não cumprir com as quotas de emissões para tirar partido do controle de emissões alheio (uma falha de garantias que costuma acontecer frequentemente em cartéis – caso da OPEP, por exemplo). Mas mais complicado ainda é nos países em vias de desenvolvimento. Nos EUA e na Europa os cidadãos já atingiram um bom nível de vida; já se podem preocupar com o futuro da descendência e, eventualmente, com a qualidade do ar que irão respirar dentro de algumas décadas. Mas na China e na Índia as preocupações das massas são sair da pobreza e ‘dar o salto’ para a classe média. As preocupações ambientais são secundárias. O objectivo primeiro é sobreviver: continuar a crescer economicamente e sair dos bairros de lata, ganhar poder de compra, etc. Na Índia – a maior democracia do mundo – a pressão para a não assinatura de um tratado deste género pode inclusivamente vir de baixo.

Este é um problema complexo que exige uma resposta complexa. E é por isso que actividades como o Live Earth são apenas catarses colectivas que limpam consciências e deixam tudo como está. Os artistas que estiveram em palco vão continuar a poluir porque não têm nenhum incentivo para o deixar de fazer. As multidões que os aplaudiram vão exigir aos respectivos Governos que diminuam as emissões de carbono, que tenham cuidado com a biodiversidade e que promovam a utilização da energia solar, da energia eólica e, de forma geral, de todo o tipo de energias que estiverem na moda. E a China e a Índia continuarão alegremente a crescer 10% ao ano numa competição injusta, contando para isso com a alegre ingenuidade dos europeus e americanos. Só boas intenções não chegam.

E agora para não dizerem que não faço posts construtivos

Num comentário ao post Socialismo Cultural, o Zé Luís (que eu gostaria muito de linkar mas que – infelizmente – não tem blogue) afirma que os apoios à Cultura podiam ser feitos na forma de prémios em vez de subsídios, sendo os prémios atribuídos através de votação do público.

Eu acho uma óptima ideia e proponho um sistema desse género. Os prémios seriam monetários e concedidos através de um sistema de cheque cultural. Os cheques culturais seriam atribuídos a pessoas com dificuldades financeiras e poderiam ser utilizados em qualquer espaço cultural, correspondendo a um desconto (de valor inversamente proporcional à condição económica) na compra de bilhetes para espectáculos musicais, teatros, etc., etc.

Um cheque deste género permitiria pôr em prática, ainda que de forma indirecta, o tal sistema de prémios, fazendo depender a sua atribuição da aceitação do público e não dos humores do Ministério da Cultura, das pressões de lobbys, do ciclo político ou das decisões iluminadas de um ‘especialista’. Os pobres que quisessem ser educados pela cultura frequentariam o tipo de ensino/espectáculo que mais lhes conviesse – o que promoveria uma efectiva redistribuição dos rendimentos – e os espaços culturais, artistas, companhias de teatro e afins não se poderiam furtar à lei básica da promoção da qualidade: a concorrência.

A teoria do especialista

Não faltam pessoas a defender que as políticas culturais em Portugal são degradantes. Ao mesmo tempo, não faltam pessoas a defender que já há subsídios a mais. É uma posição aparentemente contraditória – já há apoios que cheguem mas, ainda assim, a Cultura está pelas ruas da amargura – que normalmente é compatibilizada através do recurso à figura do ‘especialista’. O ‘especialista’ é uma qualquer figura apontada pelo Governo que teria de ser responsável pela atribuição correcta dos subsídios e pela supervisão da política cultural, garantindo uma administração parcimoniosa dos apoios e velando pela qualidade dos espectáculos/artistas/espaços culturais apoiados. O ‘especialista’ sabe qual o tipo de Cultura que deve apoiar porque é um técnico treinado na compreensão histórica, técnica e estética da Cultura e na educação das massas.

A teoria do ‘especialista’ é uma teoria baseada no egocentrismo cognitivo: a crença absoluta na correcção técnica e estética das nossas opiniões acerca da arte. Os que defendem esta teoria não defendem, na realidade, que a política cultural seja entregue a um especialista: defendem que ela seja entregue a um especialista que concorde com as suas próprias opiniões acerca da arte. Isto porque o critério que utilizam para julgar as acções do especialista em causa são as suas próprias opiniões acerca da arte e do que é boa Cultura.

É algo que se nota bem na forma como os artistas encaram as políticas da ministra da Cultura. A ministra da Cultura é a pessoa indicada pelo Governo para tratar das políticas culturais; neste sentido, é uma especialista – até porque, no caso de não ser, tem a autoridade para apontar um especialista (e frequentemente fá-lo). Os artistas apoiados pela ministra justificam a correcção dos apoios afirmando que a especialista é a ministra e que, se os críticos e a ministra têm opiniões diferentes, a razão está com a segunda, porque ela é que é uma técnica credibilizada. Os artistas não apoiados – os críticos – dizem que a ministra está errada e que é uma má especialista – que faz as suas escolhas com base em amiguismos políticos, pressões de lobbys ou pura e ordinária incompetência. Solução? Nomear um especialista. Obviamente, o especialista correcto será aquele que concordar com as suas próprias opiniões, porque é através delas que julgam as decisões do especialista.

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