Aproveitando a toada, deixo aqui as melhores passagens de um texto de Rodrigo de Sá Nogueira Saraiva. O integral, que já conhecia (foi publicado no Expresso há cerca de um ano) mas que só agora vem a propósito destacar, está na página pessoal do autor.
Na 2ª metade do século XX havia um grupo de pessoas, a que os esquerdistas mais velhos ainda fazem, por vezes, referência. Eram os «intelectuais», ou praticamente sinónimo, «intelectuais de esquerda» (a direita, por definição dada pela esquerda, não tinha intelectuais). O que era um intelectual? Era bastante simples imitá-los. Havia que citar Marx, ter preocupações sociais bastante abstractas e independentes da felicidade ou infelicidade das pessoas.
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Todos os intelectuais eram de esquerda porque, para se entrar nesses círculos, era necessário partilhar o credo marxista. Não sei até que ponto os vários intelectuais sérios o partilhavam (Althusser, por exemplo, é uma espécie de idealista do materialismo). Em qualquer caso, Marx era apenas uma figura de indentificação. A verdadeira ideologia resumia-se a uma atitude: quebra com o passado e com a burguesia.
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Havia outro elemento estético: a ininteligibilidade e extrema codificação dos significados. Barthes, um dos mais puros intelectuais de esquerda, é, ao mesmo tempo, interessante, grosseiramente trivial, especiosamente frívolo e, claro, era um homem da ruptura. Mas nenhum dos intelectuais de esquerda consegue a beleza de ininteligibilidade de um Jacques Lacan na escrita ou de um Pierre Boulez na música. Ler Lacan é, ou um desespero, se se tiver a ilusão de que ele diz qualquer coisa importante, ou um exercício de desmontagem da afirmação de coisa absolutamente nenhuma.
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A quem lê isto agora, parece tudo muito cómico. Mas não era. Todos os intelectuais de esquerda tinham ou um ar terrivelmente severo ou um sorriso superior. Não se podia questionar a sua seriedade intelectual.
Para quem tinha tão pouco para dizer, estes intelectuais influenciaram de facto o mundo. A estética foi destruída; as noções de ética do passado também; e, em geral, nada restou. Todo este exercício de destruição (a que depois se chamou desconstrução) tinha um teor messiânico: esperava-se a vinda da nova época em que a burguesia desapareceria. Para alguns, isso significava o triunfo da União Soviética;para outros, qualquer revolução que satisfizesse as tendências clásticas (quer dizer: vontade de quebrar e destruir).
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Mas o discurso oficial soviético não podia ser completamente defendido. A partir dos anos 70, os partidos comunistas começaram a perder votos. E a revolução clamada pelos intelectuais tornava-se casa vez mais incongruente: falava-se de proletariado, e ele não existia em número significativo; de camponeses que passavam fome e eles não existiam. O facto é que, depois da Guerra, a Europa se tornou, até à crise do Petróleo, um local onde o capitalismo triunfou completamente. Os proletários deixaram de o ser; os camponeses com fome desapareceram. Para quem falavam, pois, os comunistas com os discursos de Lenine? Onde estava a realidade
social dos proletários?(…)
O discurso falhava, pois, o alvo, porque não havia alvo. Os intelectuais passaram, então a falar uns para os outros. Foi nessa fase que os apanhei e os conheci, no fim da minha adolescência. Entre eles viviam a ilusão da necessidade socialista, da revolução mesmo que só pela linguagem (Barthes). Ainda assim tinham influência, ou pelo menos eram escutados e estudados nas Faculdades. Assisti de perto à formatura (com notas altíssima) de uma aluna de Letras nos anos 80. Devo confessar que nunca vi tanto despautério, tanta afirmação descabelada, tanta imbecilidade entronizada. Não, não fui eu que não percebi. Se percebi Kant não havia de perceber Maria Alzira Seixo que dizia que os problemas de linguagem de Vasco Gonçalves (que se corrigia constantemente ao dizer as frases mais simples) eram um índice revolucionário pois ele punha o seu próprio discurso em causa de cada vez que falava? Não, não há desculpa.
Mas defender a União Soviética (ainda que da forma mais indirecta e quimérica) tornou-se impossível depois da Glastnost. Pessoas que toda a vida tinham ouvido falar das chacinas de Staline sem as pôr em causa, viram-se, de repente, sem quem os protegesse – como os apóstolos depois da morte de Jesus. Tal como os discípulos (se é que houve discípulos) tinham abandonado tudo (a moral, a estética, a própria lógica) à espera da vinda do Messias. Mas foi o próprio Messias que disse, pela boca de Gorbatchov, que não viria, e quem nem sequer existia. O que fazer?
Sem valores, mas com contra-valores; sem verdades e sem contra-verdades, sem estética senão a messiânica, o que puderam eles fazer?
Deleitar-se com o facto de os valores serem todos relativos. Achar muito engraçado mostrar que nada tem sentido. E então fizeram-se pós-modernos. É engraçado citar; é engraçado imitar, mas de maneira grotesca, a ornamentação; é fascinante gostar do grotesco porque é tolo e não faz sentido. Não é por acaso que Tom Waitts, um clown que nem cantar sabe, é uma figura de culto. A outra hipótese é cultivar a depressão da falta de sentido de Laurie Anderson, ao mesmo tempo que se procura subir nas carreiras artísticas.