Num mercado livre só há um tipo de transacção possível: a transacção mutuamente proveitosa. Quando eu compro o Windows XP por 49,50€ estou a trocar dinheiro por um bem que, para mim, vale mais do que aquilo de que abdiquei (caso contrário não o teria trocado); quando a Microsoft me vende o Windows XP pelos mesmos 49,50€ está a prescindir de um bem que, para ela, vale menos do que aquilo que recebeu em troca. Este processo não precisa de nenhum intermediário. A única coisa de que precisa é alguma autoridade que garanta que apenas as trocas mutuamente vantajosas (ou seja, consentidas pelas duas partes) são feitas. Ou seja, uma autoridade que não permita o roubo, a extorsão, etc. Normalmente, esse papel cabe ao Estado.
Isto leva a que os interesses dos compradores e vendedores coincidam. Os vendedores são movidos pelo lucro. Mas, para lucrarem, têm de vender. E a única forma de venderem é oferecer algum produto que o comprador valorize. Isto quer dizer que o lucro é uma função directa da qualidade (mais concretamente, da relação qualidade/preço) do produto que o vendedor põe à disposição do comprador. Quando se diz que o Bill Gates enriqueceu às custas da sociedade, na verdade dever-se-ia antes dizer que a fortuna do Bill Gates é apenas um reflexo da melhoria da qualidade de vida dos cidadãos que foi criada pelos bens e serviços que o Bill Gates inventou/vendeu.
O mercado tem esta particularidade: só as trocas mutuamente benéficas são efectivadas. Uma coisa que não acontece com os serviços públicos. Os serviços públicos são financiados não através de acordos bilaterais mas de decisões unilaterais. O Estado determina que o contribuinte tem de pagar um serviço, taxa-o e fornece esse serviço. Como é óbvio, não há garantias nenhumas de que o valor do serviço para o contribuinte (ou seja, o valor que o contribuinte estaria disposto a gastar para dele usufruir) seja superior ao valor que o Estado gastou com a sua promoção. Como o contribuinte não tem escolha entre pagar/beneficiar e não pagar/não beneficiar, o Estado pode prestar um péssimo serviço sem estar preso às leis da concorrência.
Isto vê-se facilmente no Ensino Superior, quando constatamos que alguns (muitos) dos cursos universitários não têm grande qualidade. Esta evidência é percepcionada até pelos próprios alunos – e a inusitada frequência com que alguns faltam às aulas (conseguindo, ainda assim, passar com notas aceitáveis) é disso a prova maior. O raciocínio é simples: se não vão às aulas porque não precisam delas para aprender, então elas são irrelevantes; se não vão porque não precisam delas para passar (por exemplo, pelo facto de as avaliações não incidirem sobre os conteúdos propostos no programa), elas são na mesma irrelevantes. Ou seja, em ambos os casos as aulas eram (quase) perfeitamente dispensáveis. Por que é que os alunos continuam a frequentar a Universidade? Porque, uma vez que têm de a pagar quer queiram quer não (através dos impostos) a escolha, nesse momento, é entre: a) pagar e frequentar (com benefícios marginais mas, ainda assim, existentes); b) pagar sem frequentar (com benefícios inexistentes). Enquanto que no mercado um serviço só se sustenta se os benefícios que trouxer foram superiores aos custos, no Sector Público basta que o serviço tenha um benefício ínfimo para se conseguir sustentar.
E num mercado? Num mercado livre, os estudantes não estariam dispostos a pagar pelo mau serviço. A partir daqui havia duas alternativas: ou a Universidade melhorava os serviços de forma a torná-los apetecíveis para o público, ou baixava o preço até este ser maior do que os custos de manutenção da Universidade mas, ainda assim, inferior ao do benefício que os estudantes retirariam da sua frequência. Se a Universidade não tivesse capacidade para o fazer, os estudantes podiam sempre pegar no dinheiro e ir para outra Universidade. E deixava de haver alunos a queixarem-se da falta de qualidade do Ensino.