Consequencialismo II

No post anterior lê-se que:

Quem defende a primeira posição terá de admitir que, se zigoto é um ser humano – tão ser humano quanto o feto ou o adulto -, então contraceptivos como a pílula do dia seguinte são equiparáveis ao aborto.

Há aqui uma errata a acrescentar: a pílula do dia seguinte não é abortiva, pelo menos em situações normais. A má utilização pode levar a um fim abortivo; mas o processo activo da pílula não consiste em destruir o ovo. Aborto e pílula do dia seguinte são diferentes na sua génese – e por isso é possível estar contra um sem, contudo, condenar o outro.

A incorrecção invalida este caso particular do argumento consequencialista. Mas em termos gerais ele continua aplicável. Por exemplo: se a vida humana começa com o embrião, e o direito à vida abarca todos os estádios do desenvolvimento humano, então o aborto equivale a homicídio. Esta é (apenas) mais uma das consequências que a segunda perspectiva gradualista acarreta.

Consequencialismo

Face ao argumento gradualista, que afirma a continuidade da vida desde a concepção até à morte, há duas saídas. A primeira consiste em afirmar que zigoto, feto, recém-nascido e adulto são todos seres humanos e, consequentemente, todos igualmente abrangidos pelo direito à vida. A segunda leva à opção de uma perspectiva mais matizada, em que, sendo a vida um processo de progressiva complexificação, há, algures entre os dois extremos (concepção e morte), um momento em que o ser vivo ultrapassa essa mera condição e se torna um ser humano.

Ambas as posições têm de se defender do argumento consequencialista, que diz respeito às implicações que o princípio gradualista tem. Quem defende a primeira posição terá de admitir que, se zigoto é um ser humano – tão ser humano quanto o feto ou o adulto -, então contraceptivos como a pílula do dia seguinte são equiparáveis ao aborto. Quem defende a segunda deve, por outro lado, concluir que ao longo do processo de desenvolvimento há algum ponto a partir do qual o aborto passa a ser aceitável, sendo este ‘ponto’ definido segundo algum tipo de critério.

Isto não significa que quem opta por esta segunda via tenha de votar ‘Sim’; significa simplesmente que, votando ‘Não’, tem de justificar (com algum critério razoavelmente fundamentado e tecnicamente válido) o facto de o ‘ponto de ruptura’ se situar antes das dez semanas. De notar ainda que, consoante o critério utilizado, o tal ‘ponto de ruptura’ pode ser encontrado não apenas antes mas também depois das dez semanas. Quanto a tal critério, fica para outro post.

Gradualismo

Segundo o argumento gradualista, os estádios ao longo dos quais se processa o desenvolvimento da vida (em que se inclui a vida intra-uterina) são contínuos e progressivos. Não tem lógica dizer que um recém-nascido tem mais vida que um feto e que este tem mais vida que um embrião, da mesma forma que não faz sentido dizer que um adulto tem mais vida que uma criança; a vida, em termos puramente biológicos, começa quando os gâmetas se juntam e passa por um processo sequencial de desenvolvimento. O organismo complexifica-se mas a vida, essa, está lá desde o início.

Na sequência desta perspectiva segue-se que não há qualquer critério válido para determinar o momento em que a vida começa – à excepção do critério biológico: a vida de um ser começa com a criação desse ser, que é como quem diz, a formação do ovo. E é por isso que o aborto é condenável: porque, ao interromper um destes ‘estádios’, atenta contra a própria vida.

O problema é que não é o atentado à vida que constitui crime, mas o atentado à vida humana. Uma bactéria, uma macieira e um bezerro são seres vivos e no entanto não têm ‘direito à vida’. O critério que se usa para determinar se um ser está (ou não) abrangido por este direito não é investigar se ele está vivo ou não – mas sim se é um ser humano ou não. Neste âmbito, a verdadeira questão quando se discute o aborto não é descobrir se o zigoto ou feto estão vivos; a questão é se serão seres humanos.

Alguns pontos sobre o aborto

O feto é um ser humano. É sobre esta premissa básica que assenta a criminalização do aborto. Quem acredita que a vida humana não existe antes das dez semanas de gestação é obrigatoriamente a favor da despenalização do aborto. Embora o contrário não seja necessariamente verdade (por exemplo, pode-se assumir a premissa como verdadeira e, ao mesmo tempo, achar que, em caso de conflito de interesses, os direitos da mãe são superiores aos do feto), a verdade é que a determinação exacta do momento em que o feto se considera um ser humano joga um papel importante no debate desta questão. Dez semanas: antes ou depois? Eis a questão.

O problema de fazer um enquadramento nestes moldes é que coloca a discussão em termos (quase) puramente técnicos, o que permite trazer a terreiro argumentos da biologia, da neurologia, da química. Isto não é uma coisa intrinsecamente má; simplesmente eleva a questão a um patamar superior – um domínio em que dificilmente um leigo se atreve a entrar e em que, por isso mesmo, a manipulação é fácil e recorrente.

Contudo, para estabilizar a discussão e fazê-la assentar sobre as bases o mais consensuais possíveis, assumamos que às dez semanas de vida o feto é de facto um ser humano. Ou seja: tomemos como um dado que por essa altura o feto já está abarcado pelo direito à vida. Neste quadro, que problemas continua a levantar a criminalização do aborto?

Primeiro: a lei é de aplicação limitada. Não há maneira de saber o número de mulheres grávidas com intenções de abortar e o controlo do aborto clandestino é igualmente impossível. Uma mulher pode fazer um aborto no vão das escadas, numa clínica privada, em casa da mãe, de uma amiga ou do namorado. À entidade competente é impossível tomar conhecimento destes casos – que são a maioria – e puni-los. A lei é inútil. Não porque seja moral ou imoral mas porque é inaplicável. E uma lei inaplicável é uma má lei.

Segundo: ninguém defende a criminalização das mulheres. É curioso que mesmo os apoiantes do ‘Não’ afirmem que, apesar de serem contra o aborto, não o querem ver como um crime que dá direito a prisão. É um argumento fascinante: quem acha que o aborto constitui crime não pode ter outra reacção que não a de exigir responsabilidades ao prevaricador – o que implica o cumprimento da sanção correspondente. Um dos argumentos mais esgrimidos pelo ‘Não’ é exactamente o facto de praticamente não haver mulheres condenadas pela prática de aborto. Como se o argumento que suportasse a criminalização fosse a impossibilidade dessa criminalização se efectivar. Ora, uma lei que apenas se torna aceitável quando não é cumprida é uma má lei.

Na sequência disto surge o terceiro ponto. Numa sociedade em que ninguém acredita que a lei deva ser cumprida, os próprios agentes responsáveis pelo cumprimento dessa mesma lei – que são naturalmente parte dessa sociedade – tenderão também a não a aplicar. A polícia não age, os tribunais não julgam (ou, quando julgam, absolvem) e a opinião pública aceita. Com o decorrer do tempo isto levará a uma situação não só perversa, porque perverte a própria aplicabilidade das leis, mas também profundamente iníqua – porque deixará passar em branco a esmagadora maioria das infracções e concentrar-se-á em meia dúzia de casos ‘exemplares’ para mostrar à opinião pública que «a lei é para cumprir».

Esquizofrenia

Após curto interregno o blogue volta ao activo. Não que o tempo seja muito; a vontade é que é maior. A postagem será previsivelmente mais espaçada e sei que provavelmente haverá alturas em que a actualização do blogue só será feita de longe a longe, mas o gozo que a coisa traz compensa bem as horas perdidas.

Também ainda estou a tentar adaptar-me ao WordPress; os velhos hábitos do Blogger são difíceis de perder – fazer ctrl+i, que antes servia para colocar um simples itálico, agora só serve para abrir uma incómoda janela (e também não sei justificar o texto) – mas com o tempo chego lá (ah, e finalmente consegui livrar-me do irritante expediente de ter de inserir tracinhos para separar os parágrafos – o velho servidor teimava em juntar todas as linhas num atafulhado incompreensível).

Quando aos posts: estou um bocado atarefado (situação que se deverá manter durante as próximas três semanas) mas a verdade é que a vontade é muita e, se tudo correr bem, até ao final da semana já estarei a postar.

Pronto, e por hoje é tudo. Vão aparecendo.